10.4.17

Crítica: As Vinhas da Ira

As Vinhas da Ira


É triste ver filmes que, lançados há muito tempo atrás, continuam sendo atuais e relevantes politicamente falando, ao mesmo tempo em que é triste, é muito bom ver que existem obras que estão à frente de seu tempo, tanto em sua historia, em seu contexto, quanto na técnica utilizada para a sua realização.

E este é justamente de “As Vinhas da Ira”, lançado em 1940, o filme conta uma historia que ainda acontece nos dias de hoje, uma família, com pais, avós, crianças pequenas e irmãos e irmãs é obrigada a sair de casa devido a compra da pequena vila algodoeira onde vivem por uma empresa. O filho Tom, interpretado por Henry Fonda, acaba de voltar para casa, e está em liberdade condicional, e tem que liderar esse êxodo familiar.






Dirigido por John Ford, o filme mostra como é gerada a mão de obra pelo sistema capitalista com exatidão, já que, sendo rendeiros, e sendo obrigados a deixar sua casa e sua profissão, a família passa a procurar emprego no estado da Califórnia – para onde migraram – e la, eles aceitam qualquer coisa que pague pouco, apenas para poder comer, já que é preferível comer pouco do que não comer nada. E ai, você, leitor, pode pensar, “Mas esse filme se passa nos dias atuais? Hoje em dia temos grande fluxo de migração, que acaba gerando a mão de obra barata, já que as pessoas precisam sobreviver” e a resposta é não, o filme se passa na época da Grande Depressão norte americana, mas, ainda assim, apenas por gerar essa pergunta, a mensagem é importante e didática para os dias de hoje.

Porque, ora, é justamente isso o que acontece, empresas e grandes conglomerados que compram terrenos e pequenas vilas e cidades, despejam as pessoas, e assim, a pessoa que fazia seu trabalho simples muito bem, conseguia viver e vendia para a cidade o seu produto, é obrigada a trabalhar em algo que não tem domínio, e ainda trabalhar muito e receber pouco, e vemos isso claramente no momento atual da reforma da previdência.

O filme faz com que entendamos esse tipo de coisa de forma fácil, e graças a um roteiro perfeito, a uma montagem inventiva, que investe em cenas longas, com zoom in e out, e conta com diálogos nos quais há uma inteligência absurda, sempre buscando passar uma mensagem e causar uma reflexão, reflexão essa que parece atingir Tom, de forma mais profunda, vemos a jornada desse personagem, e vemos como ele cansa de ficar em paz e não lutar por direitos, Henry Fonda passa isso muito bem, através do tom de voz baixo, mas confiante e firme, e através da forma de andar, sempre devagar e calmo, mesmo em momentos mais intensos, no personagem há certa paz, mesmo que as situações vividas por ele e sua família sejam totalmente caóticas.

Com uma mensagem forte, o filme tem em seu final, que é otimista, uma critica ao modelo capitalista até hoje vigente, vemos ali como o socialismo (e não comunismo, que fique bem claro), pode ser bem estruturado, e principalmente, vemos o socialismo, sendo bem estruturado pelo governo, e funcionando perfeitamente.

Logo, John Ford consegue passar em seu filme, aspectos técnicos inventivos, usados até hoje, juntamente com uma historia didática e necessária. Apesar que, caso, não houvesse a mensagem e nem a historia forte, apenas a direção de Ford tornaria o filme uma obra clássica, mas, é muito bom que tenhamos uma direção soberba associada a uma critica a sociedade.  Talvez, assim seja mais fácil entender o que está acontecendo. 

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