28.3.19

Análise: O simbolismo em "Corra!" (2017)

Corra!


Lançado em 2017, “Corra!” é um filme dirigido e escrito por Jordan Peele, que levou o Oscar de Melhor Roteiro Original por seu trabalho, além de ter conquistado outras indicações na premiação, como Melhor Direção e Melhor Filme, o qual perdeu para “A Forma da Água”.

A história é a de Chris (Daniel Kaluuya), rapaz negro que vai a casa da namorada Rose (Allison Williams), uma jovem branca, pela primeira vez para conhecer os pais dela. A família mora no sul dos Estados Unidos e na casa, Chris fica desconfiado que algo está acontecendo. O Sul é conhecido por ter estados que são racistas já há muito tempo, desde a Guerra de Secessão, que ocorreu entre 1861 a 1865.


Esse é apenas um dos simbolismos que Peele insere dentro de sua história de terror. O objetivo desse texto é expor alguns deles que estão presentes no roteiro. Portanto, este texto contém spoilers de “Corra!”, caso você ainda não tenha assistido a obra e queira ler a crítica, só acessar esse link aqui.

Bom, vamos lá!


Cores

Um bom ponto para começar a analisar o simbolismo do filme são as cores, as quais Peele utiliza muito bem, com o objetivo de estabelecer o que os personagens, principalmente Rose e sua família, além do diretor, pensam de fato, mesmo que eles não exponham isso verbalmente.

O começo do filme é muito claro, os créditos foram escritos na cor azul, que pensando em um ponto de vista da história política dos Estados Unidos, é a cor símbolo do partido Democrata, tradicionalmente mais propenso a medidas contra racismo, LGBTfobia e todos os outros tipos de questões sociais. Ou seja, o diretor deixa claro já nesse uso de cor, que Chris é o protagonista.

E que Rose é a vilã, já que o carro dela e algumas das peças de roupa utilizadas pela atriz são vermelhas, cor ligada ao partido Republicano, que é o oposto do Democrata, defensor de pautas conservadoras e menos propenso a aprovar medidas relacionadas a questões sociais.

No segundo e terceiro atos do filme, que é quando ocorre a “festa” (outro tópico sobre esse simbolismo virá abaixo) e quando Chris escapa da transferência de mentes que a família de Rose quer fazer com ele, vemos como essa divisão entre azul e vermelho fica escancarada.

Na “festa”, todas as pessoas com exceção de Chris, dos “empregados” (que na verdade são os avós de Rose) e de Logan King (interpretado por Lakeith Stanfield), estão vestidos de vermelho ou com um acessório da mesma cor, ou seja, demonstrando pelo figurino, o racismo que está inserido neles.

Em compensação, Chris está de azul (camisa jeans clara e calça jeans escura), - assim como Rod - mostrando que é justamente o oposto daquelas pessoas que estão ali, inclusive de Rose, que está de vermelho e, talvez pelo amor que sente, talvez por não querer acreditar que se envolveu com uma racista, Chris prefere ignorar esse fato.

O que nos leva ao personagem principal em si.
Corra!

Chris

O protagonista de “Corra!” é um dos personagens mais bem construídos dentro de filmes de terror. Além de representar um homem prestes a ter seu corpo sequestrado, Daniel Kaluuya precisa usar o roteiro do filme para falar do racismo velado dentro da sociedade.

Ele faz isso de forma inteligente, aproveitando que a câmera e o som idealizados por Peele funcionam de forma comunicativa em relação a terceira parte dos simbolismos do filme. Assim, o personagem contribui para criar a tensão necessária para que a projeção funcione.

Logo na primeira cena, Chris aparece se barbeando, ou seja, tirando o branco (da espuma de barbear) do rosto. De forma que deixa claro como ele não está disposto a ser dominado por um branco, nem por sua namorada.

Isso também representa uma resposta de Peele ao blackface (atores e atrizes que se pintavam de preto para representar negros na época dos primórdios do cinema, como se pode ver em “O Nascimento de uma Nação”, de D.W. Griffith). Esse whiteface, é mais do que algo ligado ao filme, é ligado ao cinema, devido a essa refutação feita pelo diretor.

Peele vai deixando pistas durante a projeção do que está para acontecer, nas primeiras cenas que acontecem na casa de Rose, durante o tour que Chris faz com Dean, pai da namorada, o diretor insere uma pista usando a personagem de Georgina. Dean diz, em um momento, que a mãe dele amava a cozinha e que tem uma parte dela no cômodo, é aí que Georgina aparece a primeira vez.

Nessa hora, o som muda e uma música tensa começa a tocar de forma breve, a mesma que tocou quando Rose, sem querer, atropela o cervo na estrada, enquanto o casal está indo para a casa. Cervo esse com o qual Dean é empalado por Chris no terceiro ato, quando o personagem principal escapa.

Corra!

Racismo velado até mesmo dentro do filme

Apesar de tudo o que já foi dito, se tem algo que “Corra!” faz é discorrer sobre racismo e como esse está inserido em nossa sociedade de forma tão natural que as pessoas nem percebem que são racistas.

O filme todo trata desse assunto, o primeiro ponto é Chris indo para a casa dos pais da namorada branca que fica no sul dos Estados Unidos. O sul dos Estados Unidos tradicionalmente é racista e conservador (não que as duas coisas estejam sempre ligadas, mas, nesse caso, estão). Desde a guerra de secessão, os EUA são divididos socialmente entre norte e sul, sendo que o Norte é abolicionista e, na época atual, não racista.

Porém, se os dois partidos do sistema americano surgiram nessa época (o que eu não sei), que há um choque entre os dois e que este atinge a sociedade, isso é claro, como Peele expõe pelo uso da cor e pela divisão das cores que ocorre na “festa”. Como já dito, a palavra está entre aspas por não se tratar de uma festa, mas na verdade, ser um leilão público, onde Chris é aquele que será comprado pelas pessoas brancas, assim como ocorria na época da escravidão.

Os pais de Rose sondam Chris desde quando os dois se conhecem, através das conversas que tem com o rapaz e com perguntas como a feita por Dean “Chris, qual é o seu esporte, futebol americano, beisebol?”, porque, caso o rapaz tivesse respondido que gostava de uma das duas modalidades, provavelmente ele seria “designado” para algum ex atleta da área.

Não só os pais dela vigiam Chris, os avós dela, no corpo dos empregados negros da casa, também o fazem. Como fica claro na cena em que o protagonista acorda no meio da noite e ambos os “funcionários” estão acordados, como se fossem capatazes prontos para pegar o rapaz caso ele fugisse.

Mas, Peele utiliza esses simbolismos para Chris vencer as pessoas que querem destruí-lo, no caso, ele escapar usando algodão de forma a impedir que seja hipnotizado, sendo que o algodão era o principal produto comercializado no período escravista norte-americano e, portanto, negros o colhiam. Ou seja, algo que representa um período cruel, é usado para fazer o personagem principal escapar.

Sendo que antes disso, no vídeo que explica como funciona a transferência de mentes que a família de Rose realiza usando negros, vemos a mesma fonte e cor (azul) utilizada nos créditos iniciais do filme, mais uma forma de Peele mostrar quem vai conseguir sobreviver no fim da projeção e que Chris é a pessoa que tem a preferencia do diretor e roteirista.

Assim, Jordan Peele cria um filme que consegue discutir a questão racial de forma inteligente, fazendo o público não esquecer como é a sociedade na qual vivemos. Usando todas as ferramentas fílmicas a seu alcance, “Corra!” é uma projeção que sabe como abordar e o que abordar dentro de sua 1h44 de duração.

Seria bom se, a cada “Green Book”, existissem dois “Corra!”.

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