20.8.21

Fantasia Festival: All the moons

All the moons
Imagem: DIVULGAÇÃO

Texto que faz parte da cobertura da edição 2021 do Festival Fantasia

This critic is part of Fantasia Festival 2021 coverage

Não tem como saber se sempre foi a ideia do diretor Igor Legarreta fazer com que sua protagonista Amaia, no filme All the Moons, servisse como uma grande metáfora para a solidão que existe em nós. Principalmente porque o filme é, de inicio, uma história comum de vampiros tentando sobreviver na sociedade humana.

O filme se passa por volta dos anos 1800 e após um desastre no orfanato onde mora, Amaia é salva por uma vampira e mordida por esta. Assim, ela está destinada a imortalidade desde que fique nas sombras e saia em dias nublados. Acompanhamos a jornada dessa menina quando ela conhece Candido, um homem que perdeu a mulher e a filha e encontra em Amaia uma segunda chance.

Essa segunda chance também é algo que o filme aborda usando o terror, como muitos filmes do gênero fazem. Para Amaia, é a chance de ter a família e a vida que nunca teve, para Candido, é a chance de destinar a alguém o amor que sente pela filha falecida, de maneira que mesmo ele sabendo o que a menina é, ele pouco se importa com isso, ele apenas precisa de alguém para fugir da solidão.

A solidão é algo que afeta a todos daquela vila. O menino com o qual Amaia faz amizade, é uma criança sem amigos não por falta de oportunidade, mas sim porque não há crianças naquele vilarejo, os mais velhos em compensação tentam substituir o amor entre eles mesmos pelo amor a Deus, o que não é ruim (cada um tem e busca o amor que acha o melhor para si), mas eles se esquecem das pessoas que estão ali e se rendem facilmente ao padre, que usa a dor como ferramenta para o convencimento.

Talvez por isso o local seja escuro daquele jeito, o que é perfeito para Amaia por motivos óbvios, não apenas pelo clima, mas também pelas pessoas que moram ali. A claridade vem do afastamento desse local, nas cenas na floresta, por exemplo, ou até mesmo quando a lua, clara, brilhante e imensa é mostrada em vários momentos.

É como se o que é bom estivesse longe dali e não ali. Amaia, inconscientemente sabe que ali não é o lugar dela, pois não é ali que ela vai encontrar a paz desejada em meio ao caos da sua vida, mas, sem querer romantizar experiências ruins, foi ali que ela entendeu os problemas da vida eterna e da falta de crescimento, físico e mental.

Ela viu o povo do local como pessoas preconceituosas e limitadas, o que eles são, não pela religião, mas por outros motivos que o filme expõe bem (só reparar no egoísmo deles e no isolamento imposto em relação ao novo) e viu que ela não podia viver para sempre, ela não podia ver todas as luas (como foi dito a ela pela pessoa que a mordeu), porque ninguém pode fazer isso e principalmente, ninguém deve fazer isso.

A morte é parte natural da vida e é de certa forma, como a protagonista desse filme descobre o que significa viver. “All the moons” é um filme sobre ciclos dentro da solidão efêmera que é a nossa passagem pela vida. Triste ou não, é mais real do que parece.

Texto que faz parte da cobertura da edição 2021 do Festival Fantasia

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