14.8.17

Crítica: A Vigilante do Amanhã – Um filme não tão futurista assim

A Vigilante do Amanhã


É incrível como o cinema é um documento de sua época (como disse o diretor francês Eric Rohmer), e mais do que isso, ele pode retratar o presente ao mesmo tempo em que faz uma previsão, mostrando como a sociedade agirá daqui a pouco tempo.

Esse é o caso de “A Vigilante do Amanhã” (Ghost in the Shell), que conta uma história onde cibernética e humanidade estão claramente interligadas entre si, não por celulares, computadores e tudo o mais, e sim por aprimoramentos tecnológicos onde o que é humano começa a se perder e o que é digital passa a dominar.

Estrelado por Scarlett Johansson, a obra conta a história de Major, um corpo mecânico que, pela primeira vez, teve um cérebro transplantando e funcionando com sucesso. A moça faz parte de uma unidade militar onde missões especiais são realizadas, em uma delas, Kuze, vivido por Michael Pitt, passa a tentar destruir a empresa que criou Major, a Hanza Robotics.

Os grandes e únicos pontos positivos do filme são seu visual e a reflexão deixada no ar. Se, visualmente falando, a obra é inventiva, usando de luzes e grandes propagandas publicitarias para criar uma Tóquio futurista (não tão futurista assim né), onde há a predominância de cores como azul, vermelho, amarelo e laranja, há também a inteligência de nos bairros, subúrbios, áreas menos privilegiadas da cidade, haver a dominância do cinza, contrastando com a riqueza da metrópole.

Com uma fotografia e um design de produção inteligentes, a reflexão gerada em toda a projeção fica fácil de ser compreendida, estamos caminhando para um futuro onde a imersão da tecnologia é iminente, e o vilão é inteligente em usar como arma o hacking, já que tudo é cibernético, porque não invadir tudo para achar o que procura? E, levando isso em consideração, vemos que a privacidade corre riscos, já que tudo o que é necessário pode ser encontrado online, através das redes sociais. Como disse Major em dado momento “a privacidade é coisa para humanos”, o que prova que estamos nos tornando cada vez menos humanos e mais mecânicos, robôs automatizados como as gueixas do filme.

Infelizmente, mas não por culpa dos atores, essa reflexão deixa a desejar porque seus personagens não são bem desenvolvidos, se a busca de Major é por descobrir quem ela é em algumas cenas, em outras ela aparenta se conhecer muito bem, não há lógica em uma moça japonesa contar sua história a uma plena desconhecida e na falta de apego que os personagens tem um pelo outro.

Dito isso, vale destacar se por um lado, o fato de Major ter sido interpretada por uma atriz não oriental (já que “Ghost in the Shell” é um mangá de sucesso, criado por um japonês) é inteligente, porque a protagonista não sabe quem ela é e isso reforça o seu processo de descoberta, por outro, a decisão é errada, a personagem deveria ter sido vivida por atriz oriental, pois a criação é japonesa, a obra se passa no Japão, e seria mais real por isso. Infelizmente, a falta de representatividade é dominante, e para que fazer um filme da forma certa, sendo que há a possibilidade de arrecadar milhões de bilheteria usando uma atriz conhecida, competente e adorada pelo público?

Logo, “A Vigilante do Amanhã”, apesar da inventividade usada em seu aspecto visual e de uma reflexão pertinente ser dominante, se torna mais do mesmo, por um erro na escalação do elenco e por momentos cheios de obviedade, que fazem o público adivinhar o que vai acontecer.

7.8.17

Crítica: Dunkirk – Sem alma e perfeito na técnica



Um filme não tem apenas como objetivo entreter seu público ou ser perfeito tecnicamente, mas, (ao menos a meu ver), o grande ponto do cinema é conquistar seu espectador, e fazer isso independente da história que esteja sendo contada, usando entretenimento e técnica.

Christopher Nolan sabe conquistar quem assiste aos seus filmes, e isso ficou provado anteriormente, em obras como “Amnésia”, “Insonia”, “Batman – O Cavaleiro das Trevas” e “A Origem”, esse último o diretor escreveu sozinho, e talvez seja o único de seus filmes que seja bom e que foi escrito apenas por ele, e não em conjunto com seu irmão Jonathan.

Isso me leva a pensar que, talvez se “Dunkirk” tivesse sido escrito pelos dois irmãos. o filme funcionasse, assim como quase todas as suas qualidades técnicas funcionam (quase, porque roteiro também é técnica).

Contando uma história real da batalha de Dunkirk que aconteceu na segunda guerra mundial, a obra foca em três núcleos distintos, o dos civis tem a duração de uma semana, e é protagonizado por Mark Rylance, o dos marinheiros leva um dia, e tem em seu foco o jovem ator Fionn Whitehead, e por fim, os dos aviadores, que tem Tom Hardy em seu principal papel.

As passagens de tempo confundem o público, pois, se tudo é mais lento para os civis, é mais rápido para os aviadores, e o filme da a entender que tudo ocorre simultaneamente, o que até é real, mas não tanto assim. A montagem paralela usada para dispor a história não foi a escolha certa, justamente pela confusão que isso causa.

As atuações deixam um pouco a desejar, enquanto Mark Rylance faz seu papel funcionar muito bem, Whitehead é altamente inexpressivo, quase não fala e não transparece nenhum tipo de sentimento, se no caso do jovem ator isso é algo ruim, Tom Hardy usa isso ao seu favor, já que durante a maioria de seu tempo de tela apenas seus olhos aparecem, através de seu olhar percebemos a força que usa para virar o avião, sua concentração nos tiros e sua calma para comandar os seus parceiros.

Se a falta de falas durante o filme exclui a possibilidade de diálogos expositivos que muitos condenam nos filmes de Nolan, o som também faz isso com maestria. Durante todo o filme as pessoas se sentem imersas na guerra, como se fossem companheiros de serviços daqueles rapazes que são retratados, e a trilha sonora contribui fortemente para a empatia criada pela causa apresentada.

Os movimentos de câmera também são muito elegantes, e acredito que Nolan assistiu aos documentários que foram realizados na guerra pelos grandes diretores – como Wyler e Huston -, e baseou seus movimentos nos que foram utilizados em “Thunderbolt – O Avião P-47” e a “A Batalha de San Pietro”, pois durante muitos momentos vemos câmeras posicionadas em lugares considerados improváveis, como em uma maca, na asa de um avião, em um espelho e assim vai e nos diversos que mostram Hardy de frente, enquanto este pilota. E ainda, os planos inclinados em certas cenas envolvendo barcos afundando ajuda na sensação de que o público se afoga junto, e claro, os diversos planos gerais que permitem ao espectador ver a diferença de tamanho entre os barcos utilizados pelos civis e os barcos da marinha britânica.

Logo, Christopher Nolan cria uma projeção elegante e quase perfeita tecnicamente, mas que não tem alma, não sentimos empatia pelos personagens porque nunca os conhecemos realmente, não há profundidade e talvez isso seja justificado por conta da escolha em dividir a batalha em três núcleos, mas pode também se dever ao roteiro fraco que o filme tem.

Nolan claramente se sente a vontade com a câmera na mão e talvez não se sinta tão a vontade assim escrevendo, que é algo que ele provou que sabe fazer com “A Origem”, mas que não é sua zona de conforto e sim a de seu irmão Jonathan, que pelo visto faz uma falta tremenda na criação de histórias.

31.7.17

Crítica: Personal Shopper - Estudo sobre saudade

Personal Shopper


A solidão e a saudade sempre estão presentes em nossas vidas. Depois de um tempo, fica difícil não relembrarmos de algo com um pouco mais de carinho, ou, porque não, arrependimento. São justamente esses sentimentos, que são abordados no filme “Personal Shopper”.

Dirigido por Olivier Assayas, o mesmo de “O Profeta”, o filme conta a história de Maureen, interpretada por Kristen Stewart, que trabalha comprando roupas, acessórios, joias, para uma modelo bem sucedida. A moça vive em Paris e tem a capacidade de entrar em contato com espíritos, capacidade que é usada para tentar falar com seu irmão gêmeo Lewis, que faleceu recentemente.


24.7.17

Crítica: Fome de Poder – A ambição para a destruição

Fome de Poder


Sempre que há possibilidade de algo bom e novo acontecer ou quando uma nova ideia surge, seja esse tipo de situação algo inovador ou mais simples como a possibilidade de crescimento no trabalho e similares, é ativado algo em nossa mente que nos diz “não conte para ninguém”, é justamente isso o ponto de partida do filme “Fome de Poder”.

A obra conta a história de Ray Kroc, proprietário mal sucedido de uma empresa de mixers específicos para milk-shakes, o homem roda drive ins dos Estados Unidos para tentar encontrar compradores do seu produto. Em um determinado momento de sua viagem, uma lanchonete chamada McDonald´s faz um pedido grande de mixers e Kroc ao chegar no local, decide fazer uma parceria com os donos.

O filme usa muito bem a montagem e a fotografia para contar o absurdo que Kroc comete com os irmãos McDonald´s. Tudo aconteceu de forma muito rápida, graças a inteligência dele na exploração da ideia. Percebemos isso claramente por meio de cortes secos e poucos movimentos que ilustram a velocidade, que é a palavra dominante aqui, da mesma forma que o dono de mixers é rápido em agir, ele viu que o diferencial na lanchonete em questão era a velocidade no atendimento.

A atuação de Michael Keaton é ótima e imprime trejeitos em seu personagem que o fazem parecer um homem que está sempre com pressa, ele anda rápido, olha de um lado a outro sem parar, sorri de forma abrupta, tudo em Ray Kroc é dominado pela agilidade. Ao contrário daquilo que vemos nos irmãos McDonald´s, interpretados por Nick Offerman e John Carroll Lynch, que são homens calmos, ponderados, metódicos e lentos, justamente esse ultimo aspecto foi o que fez Kroc ver uma brecha no negócio dos rapazes.

Através da fotografia, é possível perceber o uso frequente das cores vermelho e amarelo, cores essas que tem como característica despertar fome em quem as vê, logo, por esses tons serem especificamente dominantes nas cenas em que Kroc aparece, notamos como o homem tem fome de algo, a sua ambição desperta seu apetite em fazer dos irmãos meros empregados.

Essa ambição o leva a fazer de tudo para minimizar o padrão de qualidade e maximizar os lucros, claramente, uma medida do capitalismo corporativista, e é justamente essa medida que derruba os irmãos, não que eles não queiram lucros (claro que gostam, todo mundo gosta), mas, eles se importavam com os clientes, o que claramente o vendedor de mixers não faz.

Logo, vemos uma obra inteligente que mostra como aquele gatilho citado no primeiro paragrafo é algo que na maioria das vezes é bom usarmos. O filme mostra que, se os irmãos tivessem planejado a expansão entre eles, hoje o McDonald´s seria tão grande como é, mas, que se importaria com os clientes, e com o padrão de qualidade do que é servido, já que esse era o principio que regia a administração original.

Assim, “Fome de Poder” é uma obra que explica muito bem o crescimento de um dos maiores restaurantes do mundo, sendo claro e objetivo, de forma que é fácil entender o que aconteceu ali. E, se por um lado, é bom que entendamos o que se passou, por outro lado é triste ver que os reais criadores do sistema de Fast Food não são reconhecidos, assim como várias outras pessoas talentosas por ai.

17.7.17

Crítica: A Cidade Onde Envelheço - Uma Reflexão Sobre a Vida

A Cidade Onde Envelheço
Imagem: AdoroCinema

O cinema nacional vem cada vez mais, nos últimos anos, revelando bons diretores e diretoras, e graças à pluralidade de nosso país, essas pessoas nos oferecem longas variados, de diferentes temas e que se passam em diferentes cidades.

Esse é, sem dúvida o caso de “A Cidade Onde Envelheço”, primeiro longa de Marília Rocha (já conhecida pelos seus documentários), que conta a história de Teresa, chegando de viagem vai morar no apartamento de sua amiga Francisca. As duas são de Portugal e as duas são jovens mulheres, independentes e fortes.