21.8.17

Crítica: Grave e a quebra bem feita da técnica

Grave
Foto: AdoroCinema


Um filme que causa polemica quando é exibido tem garantia de que vai ser assistido por muito tempo. Nesses casos, há dois extremos de fama que a obra pode atingir, ou ele será um tremendo sucesso e acabará virando um clássico Cult, ou haverá o fracasso e o esquecimento virá da mesma maneira que a polemica veio.

“Grave”, dirigido por Julia Ducournau, é um dos exemplos de projeção que se encaixa no primeiro caso (pelo menos para este crítico), pois o filme traz imagens fortes e ao mesmo tempo consegue quebrar regras de técnica, servindo como uma nova forma de mostrar algo que não é inédito.



Porque convenhamos, “Grave” não é inédito, a premissa do filme é simples, Justine, entrou na faculdade de medicina veterinária, vegetariana, a moça é obrigada a participar de um trote violento na instituição, quando é obrigada a comer carne. A partir disso, a jovem passa a ser uma viciada em carne de todos os tipos, inclusive a humana.

A partir dessa pequena sinopse vemos que o filme usa uma corrente ideológica para criar a sua história, nada demais nisso, mas, o fato de usar algo atual e de o filme se passar nos dias de hoje, ajuda na construção da metáfora de que a sociedade quer impor aquilo que os outros devem ser, que a ideologia de cada um deve ser igual.

E o filme prova isso muito bem, já que a irmã de Justine, chamada Alexia, apesar de também ser vegetariana, participa e ajuda nos trotes que os calouros sofrem, assim vemos como Justine é forte, por seguir sua ideologia e por ao menos tentar se segurar em relação a sua necessidade de carne.

A técnica do filme é ousada, já que vemos travellings que costumam significar uma coisa, mas aqui significam outra, assim como alguns dos ângulos utilizados, que comumente tem um significado diferente do que é apresentado em outras obras por ai. Se um ângulo de câmera como o plongée (de cima para baixo), tem como sua principal característica mostrar um personagem oprimindo o outro, “Grave” mostra o personagem que está por cima sendo oprimido ao ter que olhar para baixo. Se um enquadramento inclinado mostra um novo ponto de vista de uma mesma coisa, aqui, ele apenas serve para mostrar a dor que a protagonista sofre.

Logo, a polemica do filme não está apenas centrada na história de uma jovem que se torna canibal, e pelas cenas fortes que isso acarreta, mas também por um uso da técnica que não é igual ao de outras projeções, mostrando que para saber quebrar convenções de técnica, é preciso dominar a técnica convencional.

O que é justamente o que a diretora Julia Ducournau faz, mostrando em seu filme que é possível abordar um gênero como o de terror de uma forma diferente, usando uma linguagem inventiva e passando uma mensagem esclarecedora de como a sociedade vem cada vez mais se tornando dominada pelo ódio, sentimento esse destinado a pessoas que não são iguais as outras pelas pessoas manipuladas por algo ou alguém.

Assim, a polemica causada por “Grave” é algo inteligente e necessário ao filme, talvez, essa seja a única forma de as pessoas acordarem e perceberem que tem algo errado, tão errado quanto a vontade insaciável da protagonista ou tão errado quanto não sermos nós mesmos.

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