11.2.19

Crítica: Clímax

Clímax
Imagem: Imovision / DIVULGAÇÃO
“Clímax”, dirigido por Gaspar Noé, diretor de “Irreversível”, “Enter the Void” e “Love”, é um filme do realizador que pode ser considerado mais acessível, ainda assim, não é uma obra fácil.

A obra fala de vida, do comportamento das pessoas e principalmente, como lidar com o outro e do que é real e não é, usando até formas de surrealismo para expor sua dose de realismo. 

Os títulos abaixo são as 4 frases que aparecem durante a projeção, elas estão na ordem de aparição, pois é como funcionam na obra. Aproveitem e, se possível, vejam no cinema.


O ser é uma ilusão fugaz

Essa frase de início (ou seria o fim, já que vemos os créditos finais no começo) pode servir de resumo a obra de Gaspar Noé, sempre mostrando do que nós, como pessoas vulneráveis, erradas e errantes, somos fugazes em nossas passagens pela terra, independente do que façamos.

Clímax”, nova obra do diretor, é um filme sobre essa fugacidade. Dirigido e escrito por Gaspar Noé, a obra, que se passa nos anos 90, conta a história de um grupo de dançarinos franceses e alguns alemães, que entram na companhia comandada por Selva (interpretada por Sofia Boutella). Após seu primeiro ensaio dentro de uma antiga escola comprada ou alugada por Selva, o grupo decide fazer uma festa para comemorar a turnê, nela, é servida uma sangria com LSD e assim, todos que beberam ficam sob o efeito da droga e fora de si.

A obra utiliza de planos sequência longos e muito bem feitos pelo seu diretor, trilha sonora eletrônica condizente com a época, ou seja, Daft Punk e outros músicos de sucesso e principalmente, de uma fotografia que comunica muito mais que os diálogos bem escritos pelo diretor.

Nascer é uma oportunidade única

Comecemos a analisar os planos sequência, esse subtítulo é o ideal para tal ponto do filme, já que “Clímax” é uma projeção que fala sobre a fugacidade do ser, mas fala muito mais sobre nascimento, vida e morte. O diretor usa esses planos sequência para expor como, além de a vida ser um plano desse tipo, no qual erramos no meio do caminho, também vemos como as pessoas podem enxergar o mundo de forma monocromática a partir do que estão sentindo naquele momento.

Por isso, as primeiras cenas da obra são com a luz apenas do local onde o filme se passa, ainda com todos os personagens sóbrios, eles disfarçam o que de fato estão sentindo sobre as pessoas a seu redor. Assim, é natural que as conversas mais amistosas entre o grupo se deem nos primeiros 20 minutos de projeção, é o inicio de uma nova jornada para todos, a fase de “lua de mel” está sendo aproveitada ao máximo e todos estão felizes com o andamento da nova coreografia e da turnê na qual entrarão.

Mas, com o vermelho, vem os primeiros cortes secos inseridos por Noé no filme, significando que a boa fase está passando e que a luxuria, natural a todos nós por mais que tentemos esconder isso, passa a dominar as pessoas que estão na festa, logo, o desejo passa a ser a maior motivação de todos ali.

Não necessariamente esse desejo é movido pela libido alta das pessoas, como veremos a seguir.

Clímax
Imagem: Imovision / DIVULGAÇÃO

Viver é uma impossibilidade coletiva


Para vermos esse desejo, é necessário que entendamos que nem todas as ações do grupo de dançarinos é movida pelo efeito do LSD, eles de fato queriam fazer certas coisas ali, mesmo aquelas que são mais violentas, como arrancar o próprio cabelo, agredir uma pessoa ou apenas continuar bebendo mais sangria, mesmo que eles estejam nervosos com o “batismo” dela.

Ou seja, Noé mostra que todos nós somos pessoas más, disfarçadas dentro da nossa própria hipocrisia, por isso, viver é uma impossibilidade coletiva é uma frase tão acertada do diretor, já que nós, sendo pessoas e não sendo perfeitos, tornamos a nossa vivência mutua cada vez mais difícil com o passar do tempo.

Isso não acontece necessariamente com atitudes mais violentas, pode ser nas menores, como não guardar um segredo que um amigo lhe confiou, não alertar uma pessoa de um erro que ela cometeu e, pior, ser possível corrigir esse erro e ainda não fazer, mesmo que isso custe um preço muito alto na vida de alguém.

Por isso, o verde que é alternado com o vermelho da escola, quando finalmente conhecemos a outra dependência da instalação onde o filme se passa, é tão significativo. Em geral, o verde é uma cor que representa calma, crescimento e vitalidade, em “Clímax” vemos pessoas jovens – ou seja, com vitalidade – que buscam crescer mais na vida e ter sucesso, mas que não tem a calma necessária para tal.

Ou seja, a calma, que eles poderiam encontrar nos quartos, justamente no local onde a cor verde é mais destacada, não existe por culpa deles mesmos, que são pessoas violentas, inconsequentes e não devido ao uso de drogas – que todos ali fazem ou já fizeram – mas sim porque nós, sendo pessoas, somos todos assim.

Clímax
Imagem: Imovision / DIVULGAÇÃO

Morrer é uma experiência excepcional

Assim, sabendo dessa inconsequência, capitalizada por atitudes violentas, Noé mostra como a morte é um conceito relativo. Todos ali morreram, mesmo aqueles que ficaram vivos. O roteiro deixa isso claro, através de diálogos que mudam o protagonista da projeção, ao mesmo tempo em que a câmera faz o movimento para acompanhar o personagem que é o ponto focal do momento.

Logo por não ter um dos membros da companhia como um destaque, além de beneficiar a obra e fazer o público entender a importância dos planos sequência, também expõe como todos os movimentos ali fazem parte de uma dança, mesmo os mais insignificantes e todos representam pequenos clímaces a que os personagens chegam a todo momento.

Esses clímaces representam, sem dúvida nenhuma, a proximidade da morte a cada segundo que passa e como a vida apenas nos aproxima da morte e tem apenas pequenos bons momentos que devem ser vividos intensamente. Ou seja, a calma da cor verde pode expor a aceitação da morte que todos os personagens têm dentro de si e a violência do vermelho implica a vontade de ir contra a maré e tentar viver para sempre.

Para essa metáfora funcionar, os personagens não podem ser esquecidos pelo público e as atuações do elenco precisam ser efetivas nos momentos em que cada um deles aparece, o que, felizmente, acontece. Sofia Boutella é o destaque, claro, já que é a única ali que de fato tenta fazer algo diferente e melhorar, mesmo que se renda logo em seguida e a cena em que ela se assusta com o próprio reflexo vale o filme.

Mas, é notável como todos os personagens tem suas características e conseguem detalha-las mesmo dividindo o seu tempo de tela com os companheiros de filme, o que apenas mostra como é difícil atuar em plano sequência e como é necessário conhecer bem o papel.

Acredito que tenha dois erros nesse filme, ambos relacionados a morte. O primeiro é que há cenas muito longas, principalmente a do começo, na qual conhecemos os personagens e a do meio da projeção, onde uma dança individual é mostrada com a câmera por cima dos atores, no caso, as duas têm problema na duração, que pode deixar o público entediado, porém, ambas tem o uso dessa ferramenta justificado, a primeira para apresentar os personagens ao público e a segunda para deixar o questionamento que tudo ali pode fazer parte de uma dança.

O segundo erro é a morte do filme, o fim dele, já anunciado no começo da obra. Infelizmente, tudo que é bom dura pouco e “Clímax” é uma obra que tem que acabar e a única coisa que resta é assistir de novo, para, talvez, nos vermos dentro de uma projeção tão real ao mesmo tempo em que é surreal.

O filme está nos cinemas, distribuído pela Imovision, veja o trailer aqui:

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