17.10.16

Crítica: Persona




Como as pessoas conseguem lidar com elas mesmas? Como, manter um relacionamento saudável consigo mesmo, sem se machucar, e principalmente, sem ferir ou demonstrar qualquer tipo de dúvida para as outras pessoas? Essa é a força da história de Persona, filme de Ingmar Bergman, lançado em 1966.

Aqui vemos Elisabet Vogler atriz, interpretada por Liv Ullmann, que após um voto de silencio feito após uma peça de teatro, se retira em uma casa de praia, com ela, vai à Irmã Alma, vivida por Bibi Andersson, que é enfermeira, e a acompanha a casa para tratar da moça.





São duas mulheres completamente diferentes, uma quer ser ouvida e a outra quer ouvir, e ambas não conseguem lidar com elas mesmas, e isso é apenas um dos vários aspectos em comum entre elas, e apenas um, pois assistir o filme é essencial para descobrir os outros, e descobrir quem elas são. Enquanto Alma se importa com os outros, é enfermeira, tem família e está prestes a casar, a outra, Elisabet, é uma atriz bem sucedida, que já tem um filho e é casada, se cansa e decide não se importar mais com ninguém.

E isso, fica refletido nos aspectos técnicos do filme, é pelas duas mulheres não conseguirem lidar com elas mesmas que a obra é em preto e branco, é por isso, que quando uma delas se encontra em uma posição de vulnerabilidade é sempre a que está em frente à câmera, em foco, em posição de destaque, também é por isso que a trilha do filme é esparsa, com poucas aparições e em sua maioria inexistente, porque não existe vida para as personagens, uma tem vida e descobriu que não quer mais ter, e a outra quer ter, mas não sabe como. E isso se reflete em um sentimento que é a frustração, e que pode se resumir em uma palavra: Vulnerabilidade.

Essa vulnerabilidade que se transforma facilmente em empatia, assim se justifica o tamanho do choque que Elisabet tem quando vê fotos da Guerra do Vietnã, ela quer gostar das pessoas, mas para isso é preciso lidar com si própria, e por isso há não apenas choque por conta das fotos, há também um certo fascínio.

Por isso grande parte dos planos são abertos, para mostrar a dimensão das duas protagonistas, e aqui, vale destacar a performance das duas, Liv Ullmann e Bibi Andersson são excelentes em suas interpretações, a todo momento o público tenta descobrir quem e o que são cada uma das mulheres, e a cada nova fala, a cada novo dialogo, surge uma nova interpretação e um novo ponto de vista.

Vale falar também, que a cena que as duas aparecem unidas é sensacional, por conta de todo o contexto da historia, e que as cenas iniciais do filme, a ovelha ferida, o filme fotográfico, a mão com um parafuso dentro, a parte intima do homem, resumem toda a obra, é só prestar bem atenção.

Dessa forma, Ingmar Bergman conseguiu levar dilemas pessoais, que todo mundo tem, para o cinema de forma brilhante e altamente inventiva, e conseguiu criar reflexões e expor dificuldades que todos nós temos, tivemos ou iremos ter. “Descubra o que você é e será feliz” é um dos vários princípios de Aristóteles, e é justamente o que as protagonistas fazem naquela casa. E é exatamente isso, com os dilemas pessoais que todos temos, embutidos nas duas moças, que faz “Persona” uma obra imortal, e que sempre será necessária em qualquer momento de nossas vidas.



Nenhum comentário:

Postar um comentário