22.10.16

Crítica: O Apartamento




Asghar Farhadi trata em seus filmes histórias reais, de pessoas reais em ambientes reais, é um estudo de personagem, assim como Ingmar Bergman e Abbas Kiarostami, o importante nos filmes de Farhadi não são os aspectos técnicos, mas sim os sentimentos, a empatia que cada personagem gera.

A força de “O Apartamento” é justamente essa, o filme conta a história de Emad e Rada, um casal, que são atores em uma peça de teatro, “A Morte do Caixeiro Viajante”. Os dois tem que sair de seu apartamento, pois o prédio corre o risco de desabar, por conta disso, eles se mudam, na nova morada, alguém invade a casa, e ataca a mulher no banheiro.




Usando uma história horrível para gerar uma reflexão que já deveria ter sido embutida em todos nos há muito tempo, a obra trata justamente das consequências do ataque a Rada na vida do casal. A mulher passa a ver o mundo com um olhar de desconfiança, o que é esperado por qualquer um que tenha decência, e passa a ter medo, medo de ficar sozinha em casa, de sair sozinha e até de trabalhar Porém, ela luta, ela passa a enfrentar tudo isso, mostrando um amor pela vida que surpreende, expondo uma força que inspira e, além disso, ela ainda lida com a pressão velada das pessoas que perguntam de forma direta ou indireta porque ela não vai a policia, mas, ela dá sempre a mesma resposta, seja com seu silencio ou com sua voz que é a seguinte: Para que ir a policia, sendo que vão falar que a culpa é minha?. E sempre fazem isso, em qualquer lugar do mundo, parece que as pessoas insistem em culpar as vitimas! Um absurdo! 

Porém, o marido dela, Emad, não faz isso, inclusive, pelo contrario, ele a apoia e a respeita totalmente, ao mesmo tempo em que está profundamente abalado pelo acontecido, ele tenta viver da melhor maneira possível, e tenta ajudar a mulher a viver também, mas ele sabe que é extremamente difícil.

O que nos leva a falar da atuação perfeita de Shahab Hosseini, que ator fabuloso, o tom sensível com o qual fala com a mulher durante todo o filme comove, a forma como trata as pessoas é exemplar, e o amor pela arte que ele mostra é sensacional, sempre buscando ensinar literatura aos seus alunos e propagando o teatro para as pessoas. A atuação de Hosseini, que ganhou o premio de melhor ator em Cannes neste ano, é uma das melhores nesse ano, por conta da sensibilidade do personagem.

Taraneh Alidoosti que interpreta Rana mostra força o tempo todo, força no seu trabalho, por conta da influencia que tem no elenco da peça, força em casa, exposta muito bem na cena da mudança, e força em seu silencio, e na vontade de dar continuidade a vida, e essa é sem dúvida motivada pelo amor que sente por sua profissão e por seu marido.

Farhadi faz uma critica a sociedade machista e até mesmo as cenas de humilhação pública que frequentemente acontecem no oriente médio, de forma inteligente, elegante, usando as cores e principalmente usando o cinema e o teatro unidos em uma obra que encanta pela sua força, pelo elenco e pela metalinguagem, e choca por conta de sua história, que, infelizmente é tão real, e tão próxima das nossas rotinas. Filme imperdível, didático e necessário.



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