2.2.17

Crítica: Toni Erdmann

Imagem do papodecinema.com

Desde quando o capitalismo se consolidou como sistema econômico de (quase) todo o mundo, a vida passou a ser realizada de forma sistemática, nos nascemos, crescemos, trabalhamos até o fim da vida e pronto, não vivemos mais, não sabemos mais o que é realmente real, nem o significado das coisas, e, principalmente, não sabemos mais quem somos.

Isso é usado como motor para a critica ferrenha que “Toni Erdmann” – dirigido por Maren Ade – conta, Ines é uma mulher alemã bem sucedida que mora em Bucareste e visita Berlim de vez em quando, seu pai Winfried é um homem que faz piadas sobre tudo e todos e que em determinado momento decide visitar a filha. Os dois discutem e após a não reconciliação, o pai que tinha ido embora, volta a Bucareste usando o pseudônimo de Toni Erdmann, que conta mentiras e piadas um tanto quanto bizarras para sobreviver e tentar voltar a ter uma boa relação com a filha.




O filme apresenta uma reflexão belíssima sobre a relação pai-filhos e ainda faz uma critica ao sistema econômico vigente, é interessante que essa critica é justamente algo que Marx defendia, que as pessoas apenas trabalhariam com o objetivo de adquirir capital para as grandes empresas, e une isso a consequência principal do trabalho com esse objetivo: a falta de vontade de viver e de significado para a vida. Logo, quando vemos que “Toni” parece bem satisfeito com a vida que leva e com as piadas que faz, percebemos que tudo isso vale a pena para ele, da mesma forma, vemos que sua filha tem depressão e ansiedade, e tudo o que o pai quer é ajuda-la a entender que o trabalho dela a prejudica.

Para o publico perceber tudo isso é essencial boas atuações do pai e da filha, e Sandra Huller (Inês) e Peter Simonischek (“Toni”) nos dão justamente isso, a cada fala mais seria da filha, ou atitude que choca o pai, vemos a surpresa e tristeza na expressão facial e no olhar de Simonischek, assim como conseguimos reparar em cada nuance da mudança de Inês graças a fisicalidade de Huller, que, através de sua postura, expõe como a vida dela é carente de significado e como ela sente falta de algo que realmente valha a pena.

A montagem é perfeita, utilizando de cortes secos nas cenas em que Inês está em alguma reunião de negócios ou no trabalho, nos seus movimentos de câmera usa panorâmicas nas cenas que tem um maior valor afetivo tanto para o pai quanto para a filha, e essas panorâmicas também estão presentes em cenas nas quais o significado poderia existir, mas que naquele momento não existe, além de que nesses momentos, é usado o zoom in (quando a câmera aproxima de algo) para retratar onde poderia estar o significado, como por exemplo, na cena em que Inês canta uma musica de Whitney Houston, porém, o sentimento que ela passa é o que a canção descreve, e não o que a personagem quer sentir.

Portanto, “Toni Erdmann” é um grande filme, mostrando como tudo é passageiro e como o significado é essencial para a nossa vida pessoal e para a descoberta de nós mesmos. E essa frase fica bem exposta na festa de aniversário de Inês. Inclusive, que festa e que cena! Que filme!

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