20.3.17

Crítica: Campo Grande

Campo Grande


É comum, que nós seres humanos nos importemos mais com os nossos problemas do que com os dos outros, e que nos fechemos para os nossos problemas para tentar resolve-los, e mesmo quando nos deparamos com situações de pessoas que tem problemas muito piores do que os nossos, costumamos ignora-los e continuar fechados no nosso mundo.

E isso impede que vejamos as coisas mais claramente e que não ajudando o próximo não consigamos resolver nenhuma situação, nem a nossa e nem a do outro. E isso é justamente o ponto de partida para “Campo Grande”, filme de 2015, dirigido por Sandra Kogut.





O filme conta a historia de duas crianças, Rayane e Ygor, que, abandonadas pela mãe em frente ao prédio onde Regina mora, são abrigadas pela mulher, não sem certo confronto com a filha Lila. Regina, que mora em um bom bairro no Rio de Janeiro, decide por tentar encontrar a mãe das crianças, e a única informação que ela tem para a busca é a de que a família mora no bairro Campo Grande.

Nome do bairro que dá titulo ao filme, mas, também é uma metáfora de presença considerável na obra em relação a vida de Regina, interpretada com sensibilidade por Carla Ribas, a mulher que vive sozinha com a filha Lila – Julia Bernat, ótima no papel - , tem um Campo Grande em sua vida, campo este que é ocupado por uma sensação de vazio e culpa advindos de sua dificuldade para cuidar de alguém que não seja a si mesma, fora que, ela pensa que os problemas dela são maiores do que o dos outros, quando na verdade, não há nenhum problema aparente ali.

E isso é mostrado de várias formas durante a projeção, através dos grandes espaços no qual ocorrem algumas cenas, mostradas por planos gerais, e isso fica claro nas cenas que acontecem na cidade do Rio de Janeiro, que aqui, é tão personagem da historia quanto Regina e as crianças, e a integração á cidade por parte dos personagens é essencial para que a trama funcione tão bem.

Por falar nas crianças, que coisa boa ver talentos jovens surgindo, Rayane do Amaral e Ygor Manoel trazem uma dinâmica na relação irmão e irmã que é comovente, desde suas pequenas brigas “Para de palhaçada Raiany, se você não fizer isso a mãe não vai voltar” e até momentos amorosos, como por exemplo, nos abraços fortes e carinhosos compartilhados pelos dois.

Fora que, a trilha sonora é algo essencial para a criação da empatia, e destaco a cena onde Ygor canta “Talismã” da dupla Leandro e Leonardo, que, se o espectador presta atenção na letra, percebe-a totalmente integrada a historia que foi contada nas quase duas horas de projeção.

Projeção sensível, que apresenta um acontecimento real, que ocorre de forma incomum, e que consegue tirar a empatia e sensibilidade usando seu elenco competente e uma montagem que faz parte da linguagem tanto quanto os abraços de Ygor na irmã, o amor de Lila pela música – o que traz uma das cenas mais comoventes do filme – e claro no aprendizado de Regina com uma situação inesperada. Aprendizado que, de uma maneira ou de outra, todos nós precisamos.

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