31.7.17

Crítica: Personal Shopper - Estudo sobre saudade

Personal Shopper


A solidão e a saudade sempre estão presentes em nossas vidas. Depois de um tempo, fica difícil não relembrarmos de algo com um pouco mais de carinho, ou, porque não, arrependimento. São justamente esses sentimentos, que são abordados no filme “Personal Shopper”.

Dirigido por Olivier Assayas, o mesmo de “O Profeta”, o filme conta a história de Maureen, interpretada por Kristen Stewart, que trabalha comprando roupas, acessórios, joias, para uma modelo bem sucedida. A moça vive em Paris e tem a capacidade de entrar em contato com espíritos, capacidade que é usada para tentar falar com seu irmão gêmeo Lewis, que faleceu recentemente.



O filme mostra muito bem que todos nos temos saudade e arrependimentos, e que, assim como Maureen, queremos sempre mudar e ser outras pessoas ao mesmo tempo em que continuamos a sermos nós mesmos.

A montagem bem feita expõe justamente isso, usando de cortes secos e raccords (Passagem de um plano a outro), para indicar mudanças e variações de personalidade que ocorrem em Maureen. Percebemos que ela não gosta do seu trabalho, que tem vontade de sair de Paris, e que precisa conhecer novas pessoas. Claro que, a atuação de Kristen Stewart, ajuda o público a perceber isso, mas a montagem é importante na construção da personagem.

Um raccord que vale a pena destacar é quando Maureen usa roupas que não são as dela pela primeira vez. Observamos uma mudança na personagem através da troca de planos de enquadramento, se antes, a moça estava em plano americano (dos joelhos para cima), depois de se trocar, ela passa a estar em plano de corpo todo, e isso passa a sensação de plenitude que a personagem experimenta.

A trilha sonora, que é disposta de maneira esparsa, mostra como Maureen sente que sua vida é sem graça. Essa sensação pode ser percebida pela fotografia, que é sempre escura, mesmo quando as cenas se passam em lugares claros, expondo a personalidade da personagem, que, mesmo estando em lugares felizes e ambientes bem iluminados, está sempre triste. O que talvez explique o fato de ela deixar sempre suas bebidas pela metade, até mesmo comprando-as para logo em seguida larga-las sem nem mesmo ter tomado um gole, sempre tem um copo vazio, e as bebidas abandonadas podem ser uma metáfora para indicar um vazio que está sempre presente.

O filme levanta uma discussão sobre religião em toda a projeção, com um destaque no terceiro ato, que se resume na fala final de Maureen “ou é apenas eu?”, o que pode refletir um ponto de vista pessoal do diretor.

Logo, “Personal Shopper”, é uma obra meticulosa, que conta com uma atuação interessante da atriz principal, rica em seus aspectos técnicos e ainda consegue expor o vazio no qual a sociedade atual parece mergulhar cada vez mais.

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