18.9.17

Crítica: Neve Negra e a prepotência na arte

Neve Negra
Imagem: Paris Filmes

Às vezes um diretor tem todas as ferramentas em mãos para construir um bom filme, um bom roteiro, um bom elenco e essa pessoa sabe como usar a técnica para criar cenas elegantes, fluidas e que condizem com a história que quer contar.

Porém, há algo que prejudica o diretor desde vez em quando, que é a necessidade de tentar sempre utilizar da técnica não para contar uma história de maneira mais simples para o espectador, mas para se aparecer, e assim o que poderia ser uma cena bonita, em um filme de bom roteiro e elenco, se torna apenas pedantismo.




Sem dúvida é esse o caso de “Neve Negra”, produção conjunta entre Argentina e Espanha, o filme conta a história de Marcos, que volta para a sua terra natal com a esposa Laura, com o objetivo de realizar os últimos desejos do pai recém-falecido, que eram: vender as terras da família para um grupo canadense de investidores e ter suas cinzas enterradas no mesmo lugar onde o filho mais novo Juan está enterrado. A morte do filho mais jovem foi um acidente trágico durante um momento de caça. No entanto existe um obstáculo na figura de Salvador, o irmão mais velho quer impedir Marcos de vender as terras. O mesmo homem que não deseja a venda foi aquele que matou o menino por acidente anos atrás.

Dirigido por Martin Hodara, o filme se sustenta por conta de seus dois personagens principais, Marcos, interpretado pelo sempre ótimo Leonardo Sbaraglia (de “Silencio do Céu”) e Salvador representado por Ricardo Darin, ator muito conhecido de público e considerado excelente pela crítica.

Aqui já reside o primeiro problema do filme, se os dois atores citados acima carregam a obra nas costas, a presença da personagem de Laura (vivida por Laia Costa) se faz desnecessária, já que a obra é sobre uma crise familiar que ainda está acontecendo. Tudo o que a personagem descobre por meio de fotografias e leituras de diários antigos, poderia ter sido mostrado ao público por meio dos mesmos flashbacks utilizados para ilustrar as leituras e fotos, só que essas cenas pertenceriam a memoria dos dois irmãos, que são os personagens centrais da narrativa.

Esses flashbacks são muito bem dispostos na obra, apesar de demonstrar uma “enrolação” desnecessária na maneira da sua disposição. A maioria deles é encaixado na projeção por meio de panorâmicas, que mostram o local onde aconteceu a cena em questão e logo em seguida mostram a lembrança ocorrida naquele mesmo local. Inicialmente, é uma forma elegante de expor o passado (principalmente porque a maioria das memorias são rodadas em planos sequencia), mas as reminiscências são sempre dispostas dessa forma descrita, o que além de ser repetitivo e entediante, indica uma falta de bagagem por parte do diretor.

A montagem alternada entre flashbacks e presente se mostra inteligente, para não confundir quem assiste, em compensação, as cores escuras utilizadas na fotografia, com predominância do cinza e do branco e o uso de trilha sonora diegética (sons do ambiente), unidos a repetição de cenas como se fossem diferentes uma da outra, apenas contribui para que a obra se torne mais do mesmo.

E, por falar nisso, o filme não tem profundidade, nunca conhecemos os irmãos para saber como as relações (aparentemente conturbadas) foram construídas. O público nunca toma conhecimento do que aconteceu apesar dos vários flashbacks, e devido a isso não cria nenhuma empatia com os personagens ali retratados. Fora que o confronto entre os irmãos além de ser inútil, se revela vago.

Podendo ter uma duração menor do que a curta uma hora e meia que carrega (convenhamos que a cena do acidente e suas consequências poderia ter sido cortada por completo), “Neve Negra” é um filme carregado de volteios, pedantismo, e que provavelmente atingiu um nível aceitável por conta de Leonardo Sbaraglia e Ricardo Darin, que fazem muito mesmo com o pouco que seus papeis oferecem.

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