25.9.17

Crítica: A releitura do velho testamento em “mãe!” e as suas metáforas

mãe!
Imagem: Paramount Pictures

Essa crítica mostra os motivos de esse que vós fala ter gostado do filme e faz uma interpretação da obra. Não é porque uma leitura interpretativa foi feita que ela é a certa, muito por conta de o filme ser reflexivo e dar margens a diversas opiniões. Portanto, assistam a obra e leiam esse texto sem medo, é uma projeção sem spoilers.

É interessante que o público quando prestigia qualquer tipo de arte, sempre busca algo que comova, que mude, que incomode, mesmo que não procure isso de maneira direta, mesmo que o objetivo principal de apreciar uma obra seja apenas o entretenimento, ainda há a vontade de um algo a mais.
Sem dúvida alguma, o cinema é uma dessas artes que causa os mais diversos tipos de sensações, com os mais variados objetivos. Um filme pode ser usado como um meio de informação, como uma ferramenta politica, como uma forma de fazer criticas sociais, como entretenimento, ou para incomodar o espectador.




Esse ultimo tipo de cinema é algo que o diretor Darren Aronofsky vem fazendo muito bem durante toda sua carreira. É possível classificar alguns de seus grandes sucessos de público e critica como filmes que perturbam o espectador. “Réquiem Para Um Sonho” é uma obra que apresenta, usando personagens viciados em drogas, um estudo interessante sobre o vicio e sobre o sistema que alimenta esse vicio. “Cisne Negro” aborda o aspecto psicológico que a relação entre pais e filhos (no caso do filme, mãe e filha) pode acarretar na carreira dos mais jovens. E o seu mais novo filme, “mãe!” (em minúsculo mesmo viu!?), usa o aspecto religioso – que já tinha sido abordado em Noé – ao mesmo tempo que faz uma releitura do velho testamento e explora um assustador panorama atual.

Porque o terror, que os trailers do filme venderam tão bem, é algo que assusta a sociedade em seu dia a dia. A obra conta a história de Mãe (ou Ela, como preferir) interpretada por Jennifer Lawrence, que vive em uma casa com Ele – representado por Javier Bardem – um poeta que se retira para um local isolado junto a esposa, para que consiga escrever, até que um médico (Ed Harris, o homem de preto da série Westworld) se hospeda no local, e isso incomoda fortemente a mãe.

Os aspectos técnicos no filme, apesar de serem perfeitos, não se sobressaem a obra, e isso é um dos vários pontos positivos, pois essa é a maneira de agradar a todos os públicos. A fotografia, de Matthew Libatique, é escura, remetendo ao ambiente interno das igrejas, mesmo que o local onde se passa a cena seja bem iluminado, sempre temos a impressão de estarmos em uma casa cheia de vitrais, construída em uma arquitetura gótica.

A câmera está sempre próxima dos personagens, usando close ups nos rostos do elenco. Com os movimentos mais diversos, a proximidade dos atores faz a atmosfera de tensão ser criada gradualmente, principalmente em cenas que várias pessoas se encontram dentro do mesmo local, sendo rodadas quase sem cortes, em planos sequencia e com inúmeros travellings para a frente e para o lado, fora as panorâmicas, utilizadas na maioria dos momentos em que Lawrence anda pela casa.

O design de som é excelente, por dois motivos, o primeiro é para contribuir na atmosfera de tensão, que o filme se preocupa em criar de forma tão bem estruturada, e o segundo é a forma como o som aumenta de repente, logo quando o personagem de Bardem se impõe. Quando ele dá uma ordem de forma direta, o tom da voz dele fica mais alto devido ao som e logo essa ordem é cumprida.
Os enquadramentos usados para expor Lawrence no filme se mostram de uma grande elegância, porque ela é frequentemente mostrada entre o apoio de portas e janelas, entre vigas e paredes, sempre com essas sustentações a emoldurando, como se a personagem fosse uma santa, uma espécie de divindade dentro daquele local.

E, por falar em personagens, não há nenhum desses na projeção, todos ali são símbolos, metáforas para algo maior do que apenas um nome, sobrenome e uma personalidade bem construída. O elenco consegue expor isso com maestria, ao criar papeis que demonstram empatia ao mesmo tempo em que demonstram distancia, frieza e egoísmo.

Pois, vejamos, Ele, vivido por Javier Bardem, em uma de suas melhores performances, é o criador, Deus. O papel dele é justamente o de criar coisas, pessoas, bens materiais e deixar a sociedade usufruir disso. A mãe serve para reconstruir aquilo que foi prejudicado em algum momento, logo, ela representa a dualidade de Deus, ela remonta tudo aquilo que Ele usa para criar o mundo. Ed Harris é claramente a representação de Adão, e sua mulher, representada por Michelle Pfeiffer, é Eva, seus filhos (Brian e Domnhall Gleeson) são Caim e Abel. A casa é o jardim do Eden e o diamante, tão valioso para Bardem, tão cobiçado por Harris e sua família e tão guardado por Lawrence, representa o fruto do pecado e a ferramenta usada por Deus para a criação do mundo. Fora que, o poema que Bardem escreve, é uma metáfora da bíblia.

Isso é justificado através de várias coisas. No caso de Lawrence, ela se importa tanto com a casa, por  fazer parte dela, por tê-la reconstruído, como a própria personagem fala em determinado momento da projeção. Bardem se importa apenas com as coisas que faz, deixa de fazer ou deseja fazer, ou seja, a criação de algo. Harris e família estão ali porque o casal principal os criou, e toda crise começa quando Harris visualiza o diamante, ele cobiça a ferramenta de criação, ele deseja o pecado (o sexo) e logo após esses sentimentos se manifestarem, sua família chega a casa.

Logo, tudo o que foi citado é uma releitura do velho testamento. Porém, a obra consegue repassar esses aspectos para o contexto atual, vejamos como. As cenas onde várias pessoas se reúnem dentro da casa, são duas, acontecem em períodos diferentes da projeção e remetem a “O Anjo Exterminador” de Luís Bunuel e a “O Bebe de Rosemary” de Roman Polanski. A primeira se dá após uma morte, o velório acontece na casa de Lawrence, e um grupo grande de indivíduos, desconhecidos para a mulher, estão ali devido ao acontecimento. Nesse momento, vemos como as pessoas são interesseiras, pois tentam tomar posse de tudo o que há na casa. Enquanto a mãe liga e se incomoda fortemente com o materialismo gerado pelo livre arbítrio, Ele não se incomoda com nada disso, seguindo o preceito de amar os outros e também por querer ser adorado por aquele grupo.

A segunda cena ocorre em um momento mais próximo do fim do filme, onde um grupo ainda maior de pessoas está em busca de Bardem por conta do poema/bíblia que ele acabou de lançar. E é nessa  sequencia, que “mãe!” se supera, criando tensão através de mortes, egoísmo e materialismo, expondo como a leitura errada da palavra e como a intolerância religiosa levam ao discurso de ódio, que geraram as inúmeras guerras religiosas na idade média, e que constroem um ambiente politico destruidor nos dias de hoje. Tudo isso – que acompanhamos pelo ponto de vista de Lawrence, vale ressaltar – devido ao exagero dado quando o livre arbítrio foi cedido ao homem.

E todos esses aspectos dessa segunda cena levam a repetição, pois como diz o personagem de Bardem “Nada Basta”, até porque, se bastasse, se houvesse um final, a criação que Ele tanto aprecia nunca mais iria acontecer.

E realmente, “mãe!” não basta, porque é um filme que pode acarretar diversas interpretações, por ser expressivo, inteligente, perspicaz e por expor o contexto atual da maneira mais fiel possível, usando a violência que uma má interpretação pode gerar. Logo, essa projeção se torna uma das obras mais reflexivas que o cinema já teve o prazer de ver e desde já, um dos melhores filmes de um diretor muito bem sucedido. Um dos melhores lançamentos cinematográficos de 2017.

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