5.10.17

Crítica: “Blade Runner” e a previsão triste de uma sociedade

Blade Runner 1982
Imagem: Warner Home Video
Se há um aspecto atrativo nos filmes de ficção cientifica sem dúvida é a maneira que um bom exemplar tem de prever o futuro, não em relação aos objetos, carros e afins, mas em relação ao jeito de viver, a área política e principalmente na parte psicológica no que tange as pessoas, sem esquecer da imersão da tecnologia nas rotinas de cada um.

E, sem dúvida alguma, “Blade Runner” faz isso. Realizando um estudo de personagem rico, desenvolvendo os aspectos políticos de uma sociedade, unindo tudo isso a tecnologia e com alguns pensamentos filosóficos.




Lançado em 1982, dirigido por Ridley Scott (“Alien”, “Gladiador”, “Perdido em Marte”), o filme ambienta sua história no ano de 2019, um robô mais inteligente que o humano e construído sinteticamente (ou seja, são idênticos aos humanos), essa criatura é chamada de replicante. Os replicantes são colocados para realizar o trabalho nas fabricas, discordam disso e passam a matar os humanos como forma de rebelião, e a atitude tomada pelos últimos é designar policiais para assassinar os robôs, sem que isso acarrete em nada para o policial. Um desses é Rick Deckard, interpretado por Harrison Ford, que recebe a missão de matar um grupo de quatro replicantes, liderados por Roy (Rutger Hauer) e Pris (Daryl Hannah).

É bacana ver que as previsões que o filme (sejam essas intencionais ou não) se tornaram realidades nos dias de hoje. Os implantes realizados e investigados por Deckard são as cirurgias plásticas, as câmeras em quase todos os lugares são os celulares e as múltiplas espécies de monitoramento existentes hoje em dia, a robótica (os replicantes) meio que já existem também, basta lermos algumas notícias na editoria de “ciência e tecnologia” presente em quase todos os jornais.

O filme tecnicamente, também realiza esse tipo de previsão. A começar pela fotografia, que é sempre escura, como se os personagens vivessem em uma noite eterna, e isso podendo ser interpretado de duas formas diferentes, a primeira forma é que eles realmente vivem todo o tempo no período noturno (o filme não confirma isso, mas é o que ele dá a entender) e a segunda forma é o aspecto psicológico, devido a tristeza presente em todos os personagens retratados, Deckard vive em constante conflito consigo mesmo, ao mesmo tempo em que faz seu trabalho, ele se sente culpado por não querer matar replicantes e por ser bom nisso, Roy e Pris querem viver mais e continuar consumando o amor que sentem um pelo outro, e, apesar de terem esperança que isso aconteça, no fundo eles sabem que isso não será possível.

O ponto de vista subjetivo em algumas cenas de perseguição e a noção campo-contra campo do filme, enriquecem a obra em mostrar a sociedade por diversos pontos de vista, o que abrange não apenas a montagem, com seus inúmeros cortes secos e poucos (porém existentes) movimentos de câmera, mas também aborda o aspecto político-social envolvendo os replicantes e as pessoas.

Até porque, os replicantes não fazem o que fazem sem motivo, claro que nada justifica nenhuma das atitudes tomadas por eles, mas, foram os humanos que os forçaram a trabalhar em serviços ruins e são os humanos que os construíram para abusar deles diariamente, dando aos robôs inteligência para realizar muito mais do que são forçados, levando ao aspecto filosófico da projeção.

Pois, sim, como disse Pris em determinado momento da obra, citando Descartes “Penso, logo existo”, até porque eles têm a capacidade de pensar, foi dado a eles o livre arbítrio, o que não foi dado? A liberdade. Logo, apenas o pensamento, a dedução, a indução, fazem desses robôs criaturas vivas e capazes como qualquer humano.

Logo, “Blade Runner” é um filme inteligente em suas previsões, envolvente em sua história e perspicaz ao realizar uma previsão acertada de um futuro trágico, de uma sociedade que lida com a barbárie de todos os lados. Talvez, o melhor filme de Ridley Scott. 

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