9.10.17

Crítica: “BR: 2049” : O velho e o novo caminhando juntos

Blade Runner 2049
Imagem: Sony Pictures
Na sequência de um filme de sucesso no gênero ficção cientifica há uma dificuldade que pode se tornar uma facilidade, isso é, caso a obra esteja na mão de um diretor competente. É o seguinte: usar a amplitude do universo a favor da obra, para aprofundar uma história já conhecida, fazendo o ambiente crescer de maneira gradual.

Em 1982, “Blade Runner” de Ridley Scott, surpreendia o mundo, seja por trazer um Harrison Ford já conhecido em seu papel principal ou pela criação e consolidação do que iria se tornar o nosso futuro em quase todos os aspectos. É uma obra que explora muito bem as relações interpessoais.




Aumentar esse ambiente não é tarefa fácil, pois o que foi criado por Scott já era amplo o suficiente para um filme, assim Denis Villeneuve foi uma escolha acertada, é um diretor competente em vários tipos de projeção, mantém um nível de qualidade alto em toda a sua carreira fílmica e assume o projeto após um filme de ficção cientifica de sucesso e inventividade que é “A Chegada”.

Por isso, percebemos a dificuldade que ele teve em “Blade Runner: 2049”, pegar uma obra de sucesso, não criada por ele, e potencializar a vastidão de um universo muito bem construído. Felizmente, o nível de qualidade de Villeneuve foi mantido e temos uma sequência possivelmente melhor que o filme original.

A obra conta a história de “K” (interpretado por Ryan Gosling), replicante da nova geração (Nexus 8), que caça replicantes da velha geração – os sobreviventes daquele período de quatro anos de vida abordado no longa de 1982, acontecimento conhecido como blecaute – e aqueles robôs da geração nova considerados desobedientes. Em uma missão, o rapaz descobre algo capaz de mudar todo o panorama mundial, e por conta disso, passa a procurar o policial Deckard (Harrison Ford) que está desaparecido desde o fim dos eventos do primeiro filme.

Villeneuve, como tradicional de sua obra (basta assistir “A Chegada”, “Os Suspeitos” e “Sicário” para a confirmação desse pensamento) cria um filme complexo, usando os aspectos técnicos, enriquecendo a história e completando o sentido desta. Percebemos isso pelo uso da fotografia, da montagem e dos ângulos de câmera utilizados.

A fotografia é o que faz o filme bonito visualmente, graças a habilidade do brilhante Roger Deakins, percebemos cores em tons fortes, independentemente de quais sejam os matizes utilizados, se um cômodo é escuro, ele parecerá mais escuro apenas com o objetivo de ligar esse sentimento com o do personagem que o habita, se o local é claro há duas coisas a serem notadas, uma é que este costuma ser um ambiente externo (um lugar da cidade, uma rua, uma floresta) e a sensação denotada pela cor, seja felicidade ou uma determinada euforia por estar perto de descobrir algo.

Já na montagem a opção feita foi a da utilização de planos longos e poucos cortes, assim o espectador cria identificação com o personagem de Gosling (o protagonista desse filme) e o suspense, a curiosidade são despertadas, prendendo a atenção daqueles que assistem.

Está ligado a montagem os ângulos de câmera. Usando com frequência o plongeé (de cima para baixo) a obra sempre parece remeter a altura que domina aquele universo, os carros são voadores, os prédios são altos, os personagens são enquadrados para aparentarem altura e a escolha por esse ângulo cria a confirmação da altivez do roteiro.

Roteiro esse que não é apenas uma simples história de pessoas caçando robôs (ou de robôs caçando robôs). Ao longo de suas quase três horas de duração, vemos uma jornada de autoconhecimento e descobertas que K passa, somos convidados a enxergar tudo pelo ponto de vista dele, uma ferramenta que a projeção utiliza com inteligência, já que isso consiste em um dos pontos de surpresa para um espectador já imerso.

Isso se deve a grande performance de Ryan Gosling, apesar da falta de expressão e do jeito sisudo, a decisão do uso dessa abordagem pelo ator se mostra correta. Quando ele pensa que determinada coisa não é real, o público acredita nisso, e se ele passa a sentir, ou a mudar de atitude, a ideia é vendida com facilidade ao espectador.

O elenco não conta apenas com essa grande interpretação, Ana de Armas como Joi, convence de todas as formas possíveis, devido a seu humor leve, a perspicácia aliada a observação e claro, a identificação nutrida em seu relacionamento com K, criando uma dinâmica bacana entre os dois personagens.

Em determinado momento de BR: 2049, lemos a seguinte frase “ O que você quer ouvir, o que você quer ver”, a obra pode ser definida a partir desse dizer, se por um lado o filme é o que você deseja ouvir e ver, por outro não é nada disso. E fica claro por essa pequena antítese, que Blade Runner: 2049 é justamente o que Denis Villeneuve intencionava fazer: criar uma obra rica, eficaz, remetendo a uma projeção de sucesso e levando algo novo para o cinema. E, claro, ele conseguiu. 

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