1.4.18

Crítica: “120 Batimentos por Minuto”

120 Batimentos por Minuto
Imagem: Divulgação / IMOVISION
Lutar por direitos é importante, sempre foi, principalmente em momentos políticos claramente beneficiadores de um lado específico e esquecedores das minorias, daqueles que sofrem todos os dias e não encontram, por mais que tentem, a tão sonhada paz em meio a um caos sempre em desenvolvimento.

Festejar é importante, em meio a luta, se torna mais importante ainda. Qual seria o objetivo de lutar por algo, se, ao conquista-lo, não comemorarmos depois? Mesmo que seja pequeno, uma conquista é uma conquista e deve ser festejada. Às vezes, não fazer nada, ser despreocupado, é um ato de protesto maior que o protesto.

“120 Batimentos por minuto” é um filme que entende isso, ao dar voz tanto aos protestos, reuniões, debates do movimento “Act Up” da França, quanto as festas, vidas pessoais, tristezas e alegrias dos personagens do ativismo, além de mostrar uma outra nuance, demonstra respeito com as pessoas envolvidas.


Dirigido por Robin Campillo, o vencedor do Grand Prix do Festival de Cannes do ano passado, fala sobre o “Act Up” francês, e mostra como eles lutavam pelos direitos LGBT nos anos que se deu o surto da AIDS. O objetivo do movimento era realizar a conscientização da sociedade em relação ao HIV e brigar por melhores remédios e condições de tratamento com o governo e as empresas farmacêuticas.

Uma decisão perspicaz do diretor, é não focar apenas em um dos membros do movimento (não que tenham personagens primários e secundários), mas sim destrinchar o Act Up partindo de seus integrantes. Logo, vemos como mesmo eles sendo pessoas unidas em relação a um ideal, há divisões claras dentro do movimento, ninguém pensa igual, mesmo que lutem pelas mesmas coisas.

Assim, as melhores cenas do filme são as reuniões e debates, e nelas, acompanhamos como Thibault (interpretado por Antoine Reinartz) pensa totalmente diferente de Sean (Nahuel Perez Biscayart) e como as rusgas ideológicas entre os dois são sérias e agressivas, porém, eles se apoiam ainda assim, e estão unidos nos protestos e na luta por um bem comum. E a organização de todos ali, ao buscar sempre o dialogo em primeiro lugar, é essencial para que o ativismo deles funcione e atraia mais pessoas para causa.

Pessoas como Nathan (representado por Arnaud Valois), que ao entrar no movimento, já se envolve de forma engajada e aí é que as festas citadas acima chegam ao filme (não que isso demore para acontecer). O espectador vê as baladas pelo ponto de vista de Nathan, as cenas são cheias de luzes e se alternam com a escuridão, a trilha sonora desempenha um papel importante, de envolver o público e faze-lo criar empatia pelas pessoas que estão ali, lutando para conseguir viver em paz e com aquilo que lhes pertence por direito.

Essa escuridão se repete constantemente no filme, e dela saem cenas belíssimas, como aquela na qual, após um desfoque de imagem em uma das festas, os vultos vão se transformando em células (mostrando como todos somos iguais, independente de qualquer coisa, usando um viés biológico) e também em outras ocasiões, essas de momentos íntimos entre os militantes.

Além disso, é frequente o uso da fala de algum dos personagens como narração em off de algo que está para acontecer ou que já aconteceu, assim descobrimos um pouco mais do passado de alguns deles e em alguns casos, vemos algo que diz respeito a própria cena ser contado e não mostrado.

Porque nem precisa ser mostrado, a sensibilidade do filme é tão grande que cumpre esse papel de ilustrar algo contado, e é isso que faz “120 Batimentos por Minuto” um grande filme, expõe os dilemas de pessoas jovens, mostra uma luta que ainda não parou mas apenas mudou, e mostra como as festas são tão importantes quanto os protestos. 

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