27.5.18

Crítica: Fahrenheit 451 (2018)

Fahrenheit 451 (2018)
Imagem: HBO / Divulgação

Ao ser escrito por Ray Bradbury, “Fahrenheit 451” fazia uma previsão triste de um futuro onde a educação seria desvalorizada, a memória seria jogada no lixo e as pessoas seriam felizes na mesma proporção que o conhecimento seria pouco. Logo, basicamente o livro reflete uma vontade do sistema, em querer que a sociedade seja alienada e não saiba de nada.

Quando François Truffaut lança a adaptação deste livro para o cinema, no ano de 1966, o filme é lançado em uma época de Guerra Fria, e é muito impactante ver como a projeção encaixou com o contexto da sociedade naquela época, onde o “sonho americano” voltava a crescer e ter força e os livros eram propagados por uma geração jovem, revolucionária, inspirada ou que fazia parte da “geração beat”.

Sendo assim, para a adaptação dirigida por Ramin Bahrani funcionar, a obra tinha que ser adaptada para o contexto social atual, portanto, uma sociedade cada vez mais rápida, com alto uso da tecnologia e das redes sociais digitais e que substitui um livro por uma curtida. Esse é o “Fahrenheit 451” que vemos aqui, no remake de 2018.


Dessa vez, o bombeiro é interpretado por Michael B.Jordan, Montag é o mesmo dos livros, um homem que queima livros porque é aquilo que foi colocado na cabeça dele que é o certo. Ao ser aguçado por uma mulher a ler os livros, ele fica curioso e de fato o faz, descobrindo um novo mundo através da literatura e botando em xeque suas certezas, aumentando suas dúvidas e tentando apaziguar seu mundo.

A obra funciona por se inserir na digitalização atual, mas ao invés da televisão ser a ferramenta principal de alienação, junto com o rádio, aqui, a internet e as redes sociais digitais cumprem o papel de inserir nas pessoas o pensamento de que educação é ruim e os livros devem ser queimados. O design de produção e os responsáveis pelos efeitos visuais e especiais conseguem compor um ambiente interessante, mostrando constantemente como Montag (e todas as pessoas ali) vivem sendo vigiadas pela internet na qual estão conectadas, através das “reações” subirem na tela de vez em quando e pelas câmeras serem mostradas constantemente nas cenas.

Porém, tanto essas reações, quanto o mundo criado ali, são escuros, e a cor também faz parte da alienação imposta pelo sistema da obra, não é a toa que todos usam preto ou tons escuros, é porque a cor pode causar efeitos no ser humano, esses o podem levar a pensar, logo, podem levar as pessoas a questionar o porque do mundo ser daquele jeito.

E é aí que está, o questionamento das pessoas não é influenciado naquela sociedade, e é por isso que a adaptação em questão consegue funcionar, pois mesmo se ambientando na sociedade atual, mesmo que o queimado não sejam apenas os livros físicos, mas sejam na maioria dos casos as versões digitais das obras literárias, a metáfora criada para dizer que as pessoas precisam questionar tudo o que acontece está ali, assim como a vontade do sistema de fazerem as pessoas não se perguntarem os motivos de certas coisas acontecerem.

O roteiro consegue passar isso muito bem, pois ele fecha os arcos que cria e se aprofunda nos questionamentos do personagem principal, expondo as dúvidas de Montag desde a cena da casa da senhora, cena essencial para o funcionamento da trama, pois é através dela que o protagonista, no livro, percebe que algo errado está acontecendo. Mas mesmo com esses pontos positivos, a montagem do filme não ajuda no ritmo e no mantenimento da harmonia.

Um exemplo claro é o envolvimento de Montag com Clarisse, que nunca fica explicado, as vezes parece ser uma amizade, as vezes parece ser um namoro, as vezes parece não ser nada. Isso se deve ao uso equivocado da montagem alternada (quando dois acontecimentos são mostrados simultaneamente, mas não ocorreram ao mesmo tempo no filme), logo quando ele tem a primeira conversa particular com Clarisse (no apartamento), fica claro que ele vai embora de lá, o filme continua e percebemos que a visita durou mais que o mostrado – e o motivo da visita não ter sido mostrada toda de uma vez não fica aparente – e mais, que ele voltou lá várias vezes. Assim, esse arco entre o casal, não é desenvolvido o suficiente, e poderia ter sido, uns 20 minutos a mais de filme e isso seria resolvido.

Outro erro são os diálogos, que são pobres e em alguns momentos chegam a ser até bobos. Levando em consideração a obra ser justamente a luta contra a pobreza educacional, as conversas entre os personagens nunca serem exploradas da maneira devida é um erro considerável, mas por outro lado, isso é uma faca de dois gumes, já que a falta de eloquência pode ser uma crítica as redes sociais digitais como fonte de informação e a falta de leitura das pessoas.

Assim, “Fahrenheit 451” é uma boa adaptação, contextualizando uma obra literária importante dentro do contexto social vigente, porém não chega perto da qualidade fílmica da projeção de 1966, mas é um filme que deve ser assistido, pois reflete um sistema no qual as pessoas vivem e as vezes nem se dão conta que fazem parte dele.

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