16.5.19

Crítica: Ponto Cego

Ponto Cego
Imagem: DIVULGAÇÃO
“Porque se trata de como você pode olhar para algo e pode haver outra coisa lá que você não está vendo”.

Esse pensamento deveria ser usado em nossas vidas, mas, infelizmente, não é assim que as coisas funcionam. Vivemos em uma sociedade onde constantemente grupos são olhados como estereótipos e não como outras coisas, mesmo que elas estejam lá.

“Ponto Cego”, fala sobre isso, como deveríamos ver mais do que características atribuídas a gente por um grupo que se acha, historicamente falando, no direito de dizer o que devemos fazer, dizer e até mesmo como agir.

Collin (Daveed Diggs), é um homem negro que está a três dias de cumprir sua condicional. Ele precisa chegar em sua casa no máximo as 23h e se manter longe de qualquer coisa que possa ser considerada uma confusão. Ele trabalha com o amigo, Miles (Rafael Casal), fazendo mudanças nas casas das pessoas. Na volta para casa, Collin vê o assassinato de um negro, cometido por um policial e isso passa a assombrá-lo.

Através dessa trama, escrita por Diggs e Casal, é que o diretor, Carlos Lopez Estrada traça um retrato biográfico de um grupo de pessoas, usando Collin como ponto de partida e personalidade empática para que o público identifique situações que já viu e ignorou, seja porque quis ou porque a sociedade o ensinou que era o correto a se fazer.

Pois vivemos constantemente em meio a vários pontos cegos, sob os quais passamos despercebidos, algo que a edição do filme mostra de forma inventiva, dividindo a tela em certos momentos e apresentando uma Oakland com a qual não estamos acostumados, pelos olhos de quem devemos ver uma cidade, ou seja, de quem trabalha nela.

E são esses pontos cegos que nos permitem enxergar a “outra coisa lá que você não está vendo” que Val (Janina Gavankar), ex-namorada de Collin, diz em dado momento. É assim que a câmera se movimenta para vermos pessoas trabalhando do jeito que podem para botar comida na mesa, coisas do cotidiano ou os olhares frequentes de discriminação sob o qual Collin é visto.

Ponto Cego
Imagem: iMDB / DIVULGAÇÃO
Nesse aspecto, a fotografia do filme usa a cor de forma a sempre remeter a instituições que discriminam os negros e sempre os veem como alvo e não como pessoas, através de cores como azul, roxo e branco. Assim como o som também serve para isso, reparem como a batida do cartão no trabalho de Collin parece um tiro, ou como a sirene da polícia está sempre inserida de alguma forma na cena, independente de qual seja.

Esse tipo de técnica cria tensão, esta que é frequente na vida de negros e latinos em qualquer lugar do mundo e o roteiro muito bem escrito, mesmo que use de certas previsibilidades, consegue a partir delas, manter essa tensão viva durante as 1h35 de projeção.

De certa forma, as cenas previsíveis são clichês necessários para uma trama que insere o humor de forma natural, abordando assuntos sérios e biográficos de dois grupos distintos, porém próximos nos Estados Unidos: os negros e os latinos, que juntos precisam resistir o tempo inteiro.

Lopez Estrada usa esses clichês para construir diálogos riquíssimos, como, por exemplo, nas cenas em que Collin começa falando e acaba rimando, o rap como voz de resistência e expressão artística enriquece o filme e serve como reflexão para que saibamos como a arte é uma importante ferramenta em uma luta constante.

Com esses diálogos, o diretor aborda diversos assuntos, alguns deles que nem deveriam ser levados a sério, como, por exemplo, racismo reverso e outros que tem que ser mais falados, como a gentrificação que acontece nos bairros, as abordagens policiais, a culpabilização do negro e vários outros.

É notável e triste como “Ponto Cego” aborda todos esses assuntos tão bem, usando um ponto de vista biográfico de certa forma e ao mesmo tempo faz tudo isso parecer tão natural para todos nós.

Porque é aí que está o cerne da questão. Vemos como natural porque fomos de certa forma treinados para isso, porém, se tem uma coisa que não é natural é racismo. Estamos acostumados a criar pontos cegos para que nos escondamos de uma realidade que até pode não ser a nossa, mas que nos afeta igualmente.

Esses pontos cegos não são apenas coisas que não vemos, são coisas que deveríamos ver e se esforçar para que sejam visíveis por todos. Isso pode ser considerado uma das definições da palavra “empatia”.

E se um filme dedica todo o tempo e técnica disponíveis, para contar uma história que dá visibilidade a esses pontos cegos, ele é incrível o bastante para valer muito mais do que cinco estrelas.

Veja o trailer do filme:

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