10.6.19

Crítica: Obsessão

Obsessão
Imagem: Galeria Distribuidora / DIVULGAÇÃO
É legal e necessário que tenham ousadias na arte, de forma a fazer crescer algum objeto que já tem um formato pré-definido e que é tratado como regra tanto por quem o faz, quanto por quem o assiste.

Não há dúvidas que ousar dentro do gênero suspense foi a ideia de Neil Jordan ao dirigir e co-escrever “Obsessão” (ou no título original “Greta”), onde acompanhamos a história de duas mulheres diferentes que se conhecem de repente.

Frankie (Chloe Grace Moretz) é uma jovem que se mudou para Nova York após a mãe falecer. Ela mora com a amiga Erica (Maika Monroe) e após voltar de um dia comum de trabalho, Frankie encontra uma bolsa perdida no metrô e decide devolvê-la a sua dona, Greta (Isabelle Huppert).

As duas se tornam amigas, até que Frankie descobre várias bolsas em um armário na casa de Greta e decide se afastar. Logo que toma essa decisão, ela passa a ser perseguida por Greta.

O filme usa a perseguição e os motivos que a geraram para criar o suspense de uma relação maniqueísta, fazendo Frankie representar o bem e Greta o mal. Se por um lado isso funciona bem, pois é aqui que a ousadia de Jordan tem seus pontos fortes, por outro não é eficaz.

Temos toda a construção desse maniqueísmo a partir de cores e de posicionamento da câmera, Greta usa cores frias e mora em um lugar que não tem nenhuma cor, já Frankie vive em um lugar claro e usa cores claras, que com o passar do tempo e aumento da perseguição vão se tornando escuras.

Elas são mulheres que se conectaram rapidamente graças a perdas que tiveram durante suas vidas, Greta perdeu a filha e o marido, Frankie perdeu a mãe e se esta encontra uma nova mãe na figura de Greta, a jovem se torna uma segunda filha para a mulher mais velha. 

Obsessão
Imagem: Galeria Distribuidora / DIVULGAÇÃO

Esse jogo de claro e escuro, perdas e ganhos, é uma construção do maniqueísmo que Jordan usa como ferramenta e aliado com a câmera sempre próxima de Moretz, aumenta o suspense e o medo que a personagem sente, consegue ser eficaz por conta das atuações boas das intérpretes, não só as duas principais, mas Monroe também funciona bem em um papel secundário.

Claro, essas ferramentas são uma forma de Jordan criar medo usando a obsessão de Greta, o escuro contribui como resumo da personagem, os movimentos para os lados, são a constante movimentação e perseguição dela para com Frankie e a expressão de Huppert causa um impacto que ajuda na criação do mal.

Porém, esse maniqueísmo acaba sendo o maior tiro no pé do filme, já que a fórmula bem x mal é usada há anos não só no cinema, mas no entretenimento em geral, para contar histórias e desenvolver conflitos dentro de um roteiro como o que vemos aqui.

Isso gera brechas na história, a questão da filha de Greta ficou solta, já que a possível explicação aparece em uma cena e logo em seguida é esquecida, nesse momento era justamente onde poderia ter sido quebrado o maniqueísmo e que Greta e as motivações desta poderiam ter sido expostas, já que nunca fica claro o motivo de ela fazer o que faz.

O que gera uma pergunta: Greta é louca devido a um problema psicológico sério ou é louca apenas por ser louca? Por mais que o filme queira explorar a primeira opção, ele acaba usando mais a segunda por falta de habilidade do diretor e co-roteirista.

Assim, mesmo com uma boa ideia, bem executada em parte e com um desfecho satisfatório por manter a figura feminina no centro da trama, “Obsessão” é um filme que tenta, mas não consegue ser aquilo que deseja. Mas, devido a atuações ótimas, se segura durante 1h40 de duração.

Veja o trailer aqui:

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