15.8.19

Crítica: Dor e Glória

Dor e Glória
Imagem: Universal Pictures / DIVULGAÇÃO
“Dor e Glória” é sem dúvida alguma, o filme menos Almodóvar dos filmes de Almodóvar, porque ao invés de vermos algo que é engraçado ou pende mais para o bizarro e surreal, vemos algo pessoal, claramente autobiográfico e devido a isso, bonito.

É na figura de Salvador Mallo (Antônio Banderas) que o diretor espanhol se cria (ou recria). Acompanhamos a vida deste personagem, também diretor, enquanto este se lembra de coisas que aconteceram quando ele era criança, da relação com sua mãe, de como se tornou diretor e passou a ser o que é.

Almodóvar conta a história usando a montagem alternada, entre passado e presente, de forma que o público ligue a trajetória de Mallo e o porquê de sua vida estar do jeito que está, já que ele está passando por um momento pouco criativo, sem conseguir escrever roteiros e contar histórias.

Devido a essa montagem, frequente nos filmes do diretor, é que percebemos a pessoalidade do filme e o motivo de determinadas coisas serem como são em toda a filmografia de Almodóvar. Como, por exemplo, as cores e nesse caso, por dois motivos, o primeiro é que elas representam estados de espirito e o menino Salvador estar todo tempo vestido com roupas coloridas e vivendo numa casa sem cor, expõe como ele sempre teve algo para dizer, bastava encontrar a maneira adequada de se expressar.

E o segundo é devido justamente a essa casa, que é toda branca e a única coisa colorida é a cortina que serve de porta de entrada, como se fosse apenas lá fora que a vida tivesse algum tipo de cor e outros sentimentos que não a tristeza, já que Mallo morou com os pais, mas foi criado apenas pela mãe, Jacinta, interpretada por Penélope Cruz.

Por ser criado apenas pela mãe, vemos o possível motivo de Almodóvar usar frequentemente personagens femininas em seus filmes (principalmente no inicio de sua carreira) e de serem aquelas que são as pessoas desejadas (nem sempre de forma sexual) pelos outros personagens, não necessariamente homens, mas mulheres também.

Da mesma forma que Mallo, que se relaciona e sente desejo por homens e mulheres e que até cria uma espécie de autobiografia, através da peça que escreve para Alberto (Asier Etxeandia). O filme é tão metalinguístico que o personagem criado para representar Almodóvar cria um personagem para representar a si mesmo.

Isso torna o filme rico, principalmente por nada disso ser feito de maneira complexa. Tudo é muito simples, o filme não é tão colorido quanto uma obra de Almodóvar costuma ser, o que ajuda na leitura do personagem de Bandeiras, é uma história mais intimista e que não busca chocar, busca compreender e graças aos movimentos de câmera, a obra é muito dinâmica.

Algo que também se deve a montagem, que como já dito, é alternada entre passado e presente, e contêm passagens muito simples e eficazes entre um tempo e outro, como a cena em que Mallo vê um pianista em um clube e logo em seguida, já lembra de quando fez um teste para o coral ou quando associa a escuridão de sua casa atual com a casa (escura naturalmente) que morou quando criança.

Se essas coisas funcionam devido a simplicidade e a pessoalidade, elas também funcionam devido a Antônio Bandeiras, que aqui, traz a provável melhor atuação de sua carreira. Ao ser Almodóvar, Bandeiras passa emoção sem precisar ser caricato, passa afeto através dos pequenos gestos, passa a sensação de tristeza sem chorar e principalmente, vemos como ele sabe lidar com uma história real, pessoal e que não é a sua própria história.

Ao apostar na simplicidade em um filme que precisa dela, Almodóvar acerta a mão pela primeira vez em muito tempo (talvez, pela primeira vez desde “Tudo sobre minha mãe”). “Dor e Glória” é um retrato de uma pessoa que esqueceu quem era por um tempo e que talvez agora volte a se lembrar.

E isso é muito bonito, duro, custoso e sem dúvida dói, mas, ainda assim, bonito.

Veja o trailer do filme aqui:

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