12.8.19

Crítica: Divino Amor

Divino Amor
Imagem: Vitrine Filmes / DIVULGAÇÃO
"Quem ama não trai, quem ama divide", poderíamos facilmente ter lido essa frase em diversos locais, independente da ideologia seguida por eles, mas, ao invés disso, a escutamos no novo filme de Gabriel Mascaro, "Divino Amor".

Essa frase é basicamente o mantra de Joana (Dira Paes), uma mulher que trabalha em um cartório e lida com divórcios, no caso, com o impedimento deles, já que no Brasil de 2027 os casais são impedidos de forma legal a se divorciarem, quase como que na idade média.

Mascaro é inteligente em sua direção e no roteiro (que co-escreveu com mais três pessoas). Pois além de expor uma visão de futuro particular, mas possível, ele provoca o público e cria constantes debates temáticos, o que gera uma incerteza cada vez mais forte no espectador.

Incerteza reforçada por cortes bem dispostos após tomadas longas (por mais que algumas dessas sejam longas de forma exagerada) e, principalmente, no uso da cor na composição de quadros. O roxo significa libido, ao mesmo tempo em que significa morte. O azul significa loucura, ao mesmo tempo em que significa esperança.

Isso é possível graças a esses debates gerados e a essa incerteza constante, a morte do roxo representa a morte da liberdade do divórcio (e outras também, mas essas de maneira implícita), como fica exposto nas cenas em que Joana se encontra em dúvida ou mal sucedida em engravidar. Que é, justamente, onde entra o azul, pois ela nunca perdeu a esperança. Mas ainda assim, parece que ela sabe, o tempo todo, que é uma loucura ter um filho, por mais que ela deseje.

Porém, é notável como Mascaro deixa esse tipo de coisa implícita não apenas pelas cores, mas pelo uso de uma fumaça leve, que indica a vontade, ou a vergonha, de uma hipocrisia cada vez mais presente.

Divino Amor
Imagem: Vitrine Filmes / DIVULGAÇÃO
Menos nos momentos fortes de cenas de nudez ou cenas como um dos momentos finais do filme (o qual não posso dizer pois é essencial para trama), onde a fumaça dá lugar a uma claridade que domina todo o quadro e não necessariamente com roxo e azul, mas com o vermelho também.

Porém, é no roxo que o filme mora - os créditos iniciais e finais são em roxo, inclusive - e é através da dominação dele é que o público pode perceber outros aspectos necessários para o funcionamento da obra.

Como a trilha sonora, que é efetiva enquanto faz um resumo da sociedade que encontramos no filme. Graças a trilha, as cenas nas festas se tornam importantes e necessárias, assim como as cenas no Divino Amor, o grupo que é uma terapia de casal com o objetivo principal de reatar a relação antes (ou durante) o divórcio.

Mas, se nas festas as músicas tem letra (o que é importante para o que a cena quer dizer), na terapia coletiva as músicas são instrumentais, como se o casal que está presente ali tivesse que escrever uma letra que se adeque com sua própria vida.

Da mesma forma que a presença de trilha é necessária, a ausência dela também é, já que é nos momentos de silêncio que percebemos como Joana precisa de algo mais na sua vida, o que pode ser o filho que ela deseja, mas também pode não ser, pode ser tudo aquilo em que ela acredita (que fica explicitado na narração em off) acontecendo.

Logo, se não fosse Dira Paes, provavelmente "Divino Amor" não funcionaria como filme gerador de discussão, já que é na atuação dela que percebemos como tudo aquilo é difícil e como ela ter fé (e ela tem muita) não é algo apenas bom, mas em muitos momentos é penoso.

Tudo em "Divino Amor" é feito para gerar debates e tornar o filme provocante, de forma que até se torna difícil de ser digerido pelo espectador, talvez por ser algo palpável e que, infelizmente, sempre foi palpável.

Daqui a 10 anos rever esse filme ainda será um exercício interessante no quesito social e provavelmente, todo o cenário apresentado ainda será possível e novos debates serão gerados graças a pluralidade do trabalho de Mascaro e equipe técnica na criação de parábolas e aspectos implícitos durante as 1h40 de projeção.

Isso é algo que, dessa forma, só o cinema nacional pode proporcionar.

Veja o trailer aqui:

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