28.11.19

Crítica: Era uma vez em... Hollywood

Era uma vez em... Hollywood
Imagem: Sony Pictures / DIVULGAÇÃO
Não é novidade que os filmes de Quentin Tarantino falam sobre cinema acima de tudo, até mesmo de suas próprias histórias e claro, com as marcas registradas do diretor, como violência, vicio em pês e um roteiro bem escrito e consistente.

Em “Era uma vez em... Hollywood”, o diretor troca a violência pela nostalgia. No caso, a saudade que move o filme é a da Hollywood dos anos 60/70. Acompanhamos a história de Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e Cliff Booth (Brad Pitt), respectivamente ator e dublê. Os amigos moram em Los Angeles e estão em busca de trabalho. Enquanto isso, Sharon Tate (Margot Robbie), desembarca na cidade, assim como a seita Manson ganha força.

A obra trata essas histórias distintas ao mesmo tempo em que situa o espectador na Hollywood que Tarantino tanto preza, seja através de aparições pontuais de pessoas importantes para o cinema, como, por exemplo, as cenas com Al Pacino, ou com personagens secundários que interpretam pessoas já falecidas, como Bruce Lee (Mike Moh) e a própria Tate.

Tudo isso é possível devido a direção de arte e a fotografia, que além de reconstruírem Hollywood, fazem com que o espectador se sinta como parte dela, principalmente devido a paleta de cores mais quente, com amarelo e bege dominando as cenas, passando calor e inclusão dentro de um universo inacessível para a maioria das pessoas. 

Era uma vez em... Hollywood
Imagem: Sony Pictures / DIVULGAÇÃO
Essa escolha do diretor, de Robert Richardson (diretor de fotografia) e Barbara Ling (diretora de arte), diz ao espectador duas coisas, que aquela época foi a melhor e mais talentosa que Hollywood já teve e que o fim da era de ouro do cinema americano se aproximava rapidamente.

O que, sem dúvida nenhuma, está centrado no roteiro no personagem de Cliff Booth e na cena do rancho onde a seita Manson fica. A cena não será descrita aqui para evitar spoiler, mas basta saber que é toda em amarelo na parte externa e em preto na interna, como se o mal tivesse chegado na cidade.

E no caso de Booth, o público vê como ele entende que a profissão está passando por uma mudança e que os primeiros a perceberem isso são os dubles, os figurinistas, os maquiadores e outros profissionais das funções consideradas técnicas e expõe a falta de companheirismo deles dentro do set do filme que Rick Dalton está fazendo.

Só é possível perceber essas coisas devido a atuação de Brad Pitt, que constrói seu personagem como alguém não nostálgico, ele não sabe o que virá pela frente e se contenta com o aqui e agora, por mais que ele se preocupe com o que será seu futuro. Porém, isso não faz ele não ser misógino, é só reparar no que ele fez com a esposa. O jeito mais despojado desse personagem, a tentativa de parecer sempre despreocupado, faz com que a relação de amizade dele com Pussycat (Margaret Qualley) e com o próprio Dalton, seja uma das coisas que faz o filme andar.

Principalmente se pensarmos que Booth é exatamente o oposto de Dalton e DiCaprio passa isso muito bem, sendo sempre o ator desesperado pelo próximo papel, que sente muita dor por uma série de motivos e está ciente que essa sensação não vai passar tão cedo, como fica exposto no dialogo dele com a atriz mirim (Julia Butters), que é uma das cenas mais envolventes da obra.

Mas, apesar dessa nostalgia funcionar e de ficar claro como a figura de Sharon Tate está ali para ser endeusada (e tudo bem), o filme poderia durar menos e há muitas cenas que são desnecessárias, como as várias que mostram alguns dos personagens dirigindo e apenas dirigindo, as cenas nos quais a paixão por pês do diretor fica aparente (mas não a paixão por higiene, já que os pés estão sempre sujos) e muitos outros momentos.

O bom roteiro do filme fica prejudicado pela montagem, que faz a obra durar mais que o necessário e demorar para ganhar ritmo e seguir em frente como deve ser e há ferramentas na obra que são inúteis, como a narração em off (que aparece no inicio e depois disso volta apenas na última meia hora de filme) e as legendas que mostram o horário e dia das cenas que virão, que não fazem a menor diferença para o andamento da projeção.

Sim, claro que Tarantino quis com essas legendas, colocar um ar documental em seu filme, por mais que saibamos que aquilo não é real, mas ainda assim, saberíamos isso pelas coisas boas da obra, como a própria Tate e Bruce Lee, a homenagem a “Faster, Pussycat! Kill! Kill!” e com a mudança inevitável que o filme deixa claro que vai acontecer.

Possivelmente, se a obra focasse mais no que interessa e não nas diversas homenagens que faz, “Era uma vez em... Hollywood” funcionasse melhor e fosse um dos melhores filmes do ano. Ainda assim, é notável como a direção de Tarantino nos carrega para um final bonito, afetuoso e cheio de carinho por um dos períodos mais importantes do cinema.

Uma pena que tanto potencial seja desperdiçado com excesso de pês.

Veja o trailer aqui:

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