2.12.19

Crítica: O Irlandês

O Irlandês
Imagem: Netflix / DIVULGAÇÃO
O Irlandês” é um filme sobre tempo e tudo o que ele traz de bom e ruim, porém, principalmente, é sobre como o tempo destrói tudo (já diria Gaspar Noé em “Irreversível”) usando nossas atitudes e nossa trajetória pessoal para isso, de forma a fechar nosso ciclo inevitavelmente.

Essa inevitabilidade é a morte e o diretor Martin Scorsese e seu roteirista Martin Zaillian a tratam como ela é de fato, a única certeza da vida. Eles fazem isso através de Frank Sheeran, conhecido por Irlandês e interpretado por Robert De Niro, através de Russell Bufalino (Joe Pesci) e Jimmy Hoffa (Al Pacino). Os dois primeiros são da máfia, Irlandês é o braço direito, Russell é o chefe, Hoffa é o presidente do Sindicato que tem negócios com eles.

Os arcos citados se ligam usando o tempo do filme. As 3h30 de duração, montadas pela parceira habitual de Scorsese, Thelma Schoonmaker, fazem diferença na obra por uma série de motivos, porém um deles é o principal: sentir o tempo passando. O espectador precisa sentir o tempo passar e a única forma de fazer isso é ver o tempo passar.

Por isso, tudo no filme é tratado como um ciclo e todos os ciclos tem um fim e vemos todos esses finais, seja pelas interligações através de movimentos de câmera variados e as tomadas longas construídas usando eles ou ao apresentar um personagem e já dizer como e quando ele morreu.

Esses dois pontos fazem com que os arcos se interliguem com naturalidade, principalmente os arcos principais que são o de Frank e o de Russell. Através de flashbacks alternados entre acontecimentos importantes é possível sentir o tempo passar e enxergamos isso nos personagens, os cabelos ficando brancos, as rugas ficando cada vez mais destacadas, a postura ficando encurvada e o andar ficando mais lento.

Os detalhes citados se devem também as atuações, tanto de De Niro, quanto de Pesci e Pacino, que constroem seus personagens como homens capazes de tudo e de crueldades inimagináveis, porém, também são pessoas assustadas e que estão com medo da morte o tempo todo.

Claro que eles sabem e aceitaram que vão morrer, mas isso não significa que não tenham medo. Eles demonstram isso de forma diferente, Pesci faz Russell ser um homem calmo e exageradamente racional e mesmo quando ele faz ou precisa fazer algo cruel. Sempre falando com um tom de voz baixo e sereno, ao contrário dos outros papeis interpretado por Pesci em filmes de Scorsese (como, por exemplo em "Os Bons Companheiros"), o ator se supera e mostra como a maldade causa medo em quem a inflige e não só em quem a atinge.

De Niro constrói Frank como um homem que faz o que precisa ser feito e se sustenta no motivo do personagem para isso: as suas filhas. Longe de ser um pai presente para as quatro garotas e causando medo constante em Peggy (interpretada por Anna Paquin, que oferece um contraponto sólido ao pai), Frank tem medo de perder o amor delas por ter feito aquilo que achava ser o certo, por mais que não seja e que esse seja o fim do seu ciclo.

Já Pacino é surpreendentemente o mais explosivo dos personagens. Ao contrário de outros filmes nos quais interpretou mafiosos, como Michael Corleone na trilogia O Poderoso Chefão, que era um homem extremamente racional, Jimmy Hoffa é esquentado, explosivo, orgulhoso e, por incrível que pareça, solidário, já que ele ajuda de fato o trabalhador sindicalizado, por mais que essa ajuda seja originada de forma criminosa.

Hoffa e Russell tem o mesmo medo quando se trata de fim de ciclo, o de passarem despercebidos e de não terem feito tudo o que desejavam fazer. O que é interessante, já que os dois são homens completamente diferentes e a única coisa que os une são o ramo de trabalho. 

O Irlandês
Imagem: Netflix / DIVULGAÇÃO
Isso mostra como nós, sendo apenas pessoas, somos iguais em muitos dos nossos aspectos, mas principalmente no medo que sentimos que o nosso tempo acabe. A montagem novamente trabalha isso durante as 3h30 de projeção, seja pela duração do filme, que sem dúvida foi proposital, ou por como ela expõe o que o espectador busca, na maioria das vezes, esquecer quando assiste a um filme, que a vida é passageira e a morte é inevitável.

Tal ponto justifica a decisão do diretor de um ritmo mais lento (o ritmo de “O Irlandês” lembra o ritmo de “Silêncio”), com poucas cenas de ação, por se tratar de um filme de máfia dirigido por Scorsese, vemos poucas mortes, por mais que elas existam e sejam variadas. Mas, que fique bem claro, não falta dinamismo na obra e a duração não deixa o público entediado.

Na verdade, se tem um efeito que a duração causa no público é o de reflexão. Assistir a esse filme é refletir sobre o nosso tempo em vida e pensar que ele acaba mais cedo ou mais tarde. Muitos querem isso, inclusive é um ponto que o filme aborda, mas outros se recusam a morrer.

A recusa fica muito bem exposta na cena em que Frank discute por causa de um banco de carro com cheiro de peixe, que não pode ser detalhada para evitar spoilers, porém, além de expor a vontade de Frank de não desistir, o momento faz referencia ao “dormir com os peixes” da trilogia “O Poderoso Chefão”.

Mas, tanto Frank, quanto Russell, Hoffa e o espectador, tem a certeza que os nossos tempos em vida acabarão. É inevitável pensarmos nisso e é pela vontade de esquecer que morreremos é que a sociedade avança em direção ao fim, seja através do bom caminho ou através de um corredor mal iluminado de um asilo que dá num quarto escuro com uma porta entreaberta.

Devido a isso, “O Irlandês” talvez seja o filme sobre máfia mais real que já foi feito, por expor esse medo e a certeza do fim de forma melancólica, porém palpável. Não é surpresa se quando acabar o filme, por mais paradoxal que isso possa ser, que o público se sinta mais vivo do que nunca.

Caso isso aconteça, saibam que talvez isso seja um passo a mais na aceitação de que sim, todos nós morreremos, mais cedo ou mais tarde e enquanto isso, aproveitemos as 3h30 de um dos melhores filmes de um dos melhores diretores que o cinema já viu.

Veja o trailer aqui:

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