23.3.20

Crítica: Três Verões

Três Verões
Imagem: Vitrine Filmes / DIVULGAÇÃO
A atualidade no cinema é algo que quanto mais o tempo passa, mais ela é presente e todos sabiam que mais cedo ou mais tarde, as consequências da Operação Lava Jato para o povo e não a operação em si, virariam tema de um filme.

Para tratar as consequências desse acontecimento, os personagens principais do filme têm que ser os empregados e é isso que “Três Verões”, dirigido e co escrito por Sandra Kogut faz. Através da história de Madá (Regina Casé), vemos como a vida das pessoas que trabalhavam para os futuros presos da operação, mudou de uma hora para outra.

Através de três anos (por isso o título), acompanhamos a história de Madalena, que é caseira de uma família rica do Rio de Janeiro. Essa família dá festas todo fim de ano em sua mansão e em 2016, a festa não acontece devido a prisão de Edgar (Otávio Muller) e assim, os empregados da casa passam a trabalhar das diversas formas para conseguir viver.

Fica clara a oposição entre patrão e empregado no filme, principalmente devido ao primeiro ato, que se passa em 2015 e contextualiza toda a história. É claro, que o patrão trata o empregado mal, através dos pequenos detalhes, como o jeito de falar passivo agressivo, o afastamento gradual do trabalhador da família e claro, a separação financeira entre ambos.

Porém, “Três Verões” é um filme sobre sinais do que aconteceria e nisso, os detalhes que Kogut coloca na trama fazem o filme rico. A desvalorização do nacional em prol do estrangeiro disfarçada de patriotismo na cena da “estátua” na sala da família, a decoração da casa, como os quadros, o sofá, o estilo arquitetônico e claro, o pato na piscina que claramente representa um pato bem conhecido do público.

Esse mesmo pato representa as fases da família e portanto de Madá. Se em 2015 ele aparece cheio e flutuante, em 2016 ele está prestes a ficar murcho, porém, ainda na piscina cheia e em 2017, ele está completamente murcho na piscina já inutilizável.

Os detalhes como esse, assim como a atuação de Regina Casé e do elenco, é aquilo que mantém o filme vivo, já que é através destes que o filme consegue ser atual, já que trata de pessoas que precisam trabalhar para viver, ou seja, tratam da maioria do povo brasileiro. É fácil se identificar com a história de Madá, pois ela parece com a gente e é fácil se colocar no lugar dela em toda aquela situação, o trabalho, um sonho (o quiosque e reparem como, em dada cena em que ela está voltando do quiosque, ela carrega algo que no ângulo utilizado por Kogut, remete a tocha olímpica, que passou pelo Rio devido as olimpíadas de 2016, justamente o ano da cena) e a vida pessoal da personagem.

Apesar dos detalhes, o filme estruturalmente é repetitivo, o que pode tornar a experiencia um pouco tediosa para alguns, já que as passagens de tempo são sempre iguais e o filme foca de fato nos verões (e isso não é ruim) mas o foco é sempre da mesma maneira, então determinados traços ficam previsíveis.

Um dos traços que não fica previsível é atuação de Regina Casé, que consegue imprimir emoção, humor e profundidade a sua personagem de forma orgânica e natural, fazendo coisas simples (como o “Sushicha”) serem divertidas e adicionando detalhes ao filme que só são possíveis graças a ela.

Logo, apesar da repetitividade estrutural, “Três Verões” é um bom trabalho de Sandra Kogut, uma diretora detalhista e atenciosa nas suas obras. Este é um filme que mora nos detalhes e nos sinais de um futuro não promissor em um Brasil cada vez mais atual.

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