30.3.20

Crítica: Zombi Child

Zombi Child
Imagem: California Filmes / DIVULGAÇÃO
É louvável a ideia de Bertrand Bonello, diretor, roteirista e produtor de “Zombi Child”, seu novo filme. Ela diz respeito a uma história de origem e de privilégios conquistados a partir da colonização de povos, no caso, o do Haiti, que foi colonizado pela França por volta de 1697.

Por isso, o filme contar a sua história usando duas linhas temporais não é algo totalmente avulso, mas, deixar a ligação implícita e fazer essa ser previsível é um defeito de uma obra que poderia abordar descendência, herança cultural, apropriação cultural e privilégios de forma muito melhor do que faz.

Mas, será que faz? Acompanhamos, como dito, duas linhas temporais distintas, uma se passa no Haiti em 1962 e a outra em Paris atualmente. A protagonista é Melissa (Wislanda Louimat), uma jovem haitiana que mora na França e estuda em um colégio interno exclusivo para meninas. Após contar um segredo para colegas de classe, ela se vê envolvida em uma trama parecida com a do personagem de 1962, um homem que, após ser enfeitiçado e virar um zumbi, é obrigado a trabalhar em plantações de açúcar.

Sim, a ligação não fica clara pela sinopse, porém, ao assistir o filme ela fica exposta logo de cara, graças a previsibilidade do roteiro que permite ao espectador perceber muitas coisas antes que essas aconteçam. O atrativo do filme seria a herança cultural que Melissa carrega e que vemos como a pessoalidade da personagem é construída desde 1962.

Seja porque ela se esforça para se manter fiel aos costumes que lhe foram ensinados desde pequena – e vale reparar como ela estuda em uma escola na qual ela faz coisas que a aprovam e incluem aos olhos do branco, como aprender inglês (já que fala francês) e cantar – ou porque o filme trata a herança a partir do privilegio.

Esse privilegio é visto através das colegas de Melissa, que a fazem constantemente negar a sua origem para que possa ser “incluída” no grupo delas, o que pode ser interpretado como uma colonização moderna, porém, essa interpretação é estritamente pessoal, pois o filme não deixa claro se é isso mesmo ou se não é, já que a direção não se aprofunda nesse aspecto.

Na verdade, a direção não se aprofunda em nenhum aspecto e devido a isso, a história cria expectativas que não cumpre e a trama fica parada, estática, o que faz o filme que tem 1h40 de duração parecer como se tivesse 2h40. Levando isso em consideração, a montagem contribui para a estagnação da história, de forma que falta ritmo nos cortes e por consequência, dinamismo na ação.

O que é uma pena, pois há coisas boas no filme. Além da ideia de falar de herança e privilégios, o que já foi aprofundado nesse texto, os enquadramentos do filme são interessantes. É inteligente colocar Melissa, quando está com as outras colegas, principalmente nas salas de aula, sempre atrás das meninas brancas, como se sempre dessem um jeito de subjugar ela devido a sua origem.

Ou mostrar como as pessoas (e nesse caso independente de raça e origem) tem dificuldade para se incluir em um círculo, seja um do qual ela já faz parte de forma implícita ou, o que é a situação do filme, o circulo que a pessoa tenha que abrir seu próprio caminho para conseguir fazer parte daquilo, por mais que seja custoso e que talvez nem valha a pena.

Mas, até essas boas ideias são jogadas fora quando a trama não anda, quando a mensagem que se quer passar não fica clara e quando se toca “You’ll never walk alone”, uma música criada por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II, dois homens brancos, para expor a independência de uma protagonista negra.

É, Bonello, não foi dessa vez.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Copyright © 2016 Assim falou Victor , Blogger