20.4.20

Crítica: Você não estava aqui

Você não estava aqui
Imagem: DIVULGAÇÃO
“As quatro da manhã ele acordou, tomou café sem pão e foi a rua por o bloco pra desfilar”. Essa frase do Criolo resumiria bem “Você não estava aqui”, novo filme de Ken Loach, se a obra fosse apenas sobre trabalho e precarização deste, porém, é muito mais complexo do que isso.

Porque o filme é sobre família, relações familiares e como a precarização do trabalho, disfarçada de modernização e liberdade muda todo o convívio de pessoas que se conhecem desde sempre. No caso, Ricky (Kris Hitchen) passa a ser entregador de encomendas, trabalho no qual seu rendimento depende de quantas entregas fizer no dia, sua esposa Abbie (Debbie Honeywood) é cuidadora de idosos e deficientes e ganha pelo número de visitas que faz no dia.

Os filhos deles, Seb (Rhys Stone) e Liza (Katie Proctor) tem suas rotinas, que envolvem a escola e no caso de Seb, dar trabalho para os pais. Assim, a obra mostra como a família, a partir dos seus empregos e rotinas, tenta melhorar suas vidas e ao mesmo tempo viver.

Talvez seja esse o grande tema do filme, a vida em si, já que devido aos seus empregos, Ricky e Abbie não tem tempo para si próprios e principalmente, não tem tempo para os filhos, de forma que o trabalho, a necessidade dele e a falta de uma opção melhor de emprego, força o casal a abandonar a vida familiar que construíram para conseguirem se manter.

De maneira que a montagem do filme faz você sentir isso a cada minuto e força o espectador torcer para o filme acabar, já que tudo aquilo é tão real, que o público não quer estar ali, ele quer estar fora dali pelo menos por duas horas e Loach não deixa, porque ele nos prende de tal forma na trama que somos obrigados a permanecer.

Assim como os empregos de Rickie e Abbie os prendem longe dos filhos, que os dois se esforçam tanto para criar. Isso não é só perceptível pelos diálogos e cenas da família reunida (reparem na cena do jantar), mas também pela decoração da casa, que tem alguns retratos pendurados na parede que eles não podem modificar, já que a casa não é deles.

Ou na van de Ricky, que tem uma foto dos quatro presa no vidro, a qual ele vê enquanto dirige, ou no imenso carinho e preocupação que tanto ele, como Abbie e até mesmo Liza, tem com Seb, o filho mais velho, que é tão importante para a trama quanto é importante para a mensagem clara que Loach deseja passar nas cenas em que aborda exclusivamente as relações trabalhistas.

Porém, se Seb tem esse papel, Liza é importante no sentido de afeto, sentimento que Katie Proctor passa muito bem (principalmente numa cena específica). Já que é nela que vemos o amor da família de fato, como, por exemplo, na cena em que ela ajuda o pai no trabalho, mais especificamente no momento em que ela preenche a ficha de entrega da encomenda para a pessoa que não está em casa.

Nessa ficha, vemos parte do motivo do título do filme (a outra parte está no final dele, o qual não comentarei aqui). No papel está escrito “Sorry, we missed you” (Desculpa, sentimos sua falta) e é com base nessa frase que Loach constrói um terceiro ato destruidor, onde as pessoas daquela família sentem falta umas das outras devido a suas rotinas e ao caos que o dia-a-dia lhes impõe.

Devido a isso, é impossível que o filme não se torne pessoal para muitas pessoas que o assistem (ou que, espero, assistirão), já que esse “desculpa, sentimos sua falta” é algo que a maioria da sociedade já deve ter sentido de alguma maneira, seja num feriado que alguém da família precisa trabalhar ou no dia-a-dia mesmo, quando esse mesmo alguém precisa trabalhar para ele e você conseguirem viver.

Sendo assim, uma hora, no ciclo que nos é imposto, nós seremos o alguém necessário para que outra pessoa consiga viver e assim por diante. É aqui que Loach dá a cartada final em mais um grande filme, deste que é um dos melhores diretores atualmente.

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