15.6.20

Crítica: Destacamento Blood

Destacamento Blood
Imagem: Netflix / DIVULGAÇÃO
A maioria das guerras nunca acabam e, para piorar, elas se tornam mais fortes com o passar do tempo e com os avanços (ou não) da sociedade. Guerras como a do Vietnã e a guerra que a população negra travou desde sempre por direitos básicos são o assunto de “Destacamento Blood”, novo filme de Spike Lee.

Dirigido e co-escrito por este, a obra conta a história dessas guerras a partir de quatro personagens, Paul (Delroy Lindo), Otis (Clarke Peters), Eddie (Norm Lewis) e Melvin (Isiah Whitlock Jr). Veteranos da guerra do Vietnã, eles voltam ao local para levar de volta para os Estados Unidos duas coisas: o corpo do líder do destacamento, Norman (Chadwick Boseman) e o ouro que eles acharam em uma missão e enterraram no mesmo lugar do achado.


Assim, com esses dois objetivos, se junta a eles David (Jonathan Majors), filho de Paul, que preocupado com o pai que tem ataques de pânico devido ao transtorno pós traumático da guerra, decide ajudar os quatro homens na busca. Lee assim, trabalha com a história de forma a gerar debates mais do que válidos e fazer críticas diretas ao tratamento que o estado dá aos soldados negros na guerra bélica.

Porque sim, assim como todo país que se envolve em uma guerra, os Estados Unidos tinham clara preferência em mandar os soldados negros para a linha de frente. Logo, o diretor trata essa escolha do estado da forma mais real possível, ou seja, a história daquele destacamento, é uma história de duas lutas ao mesmo tempo, a por direitos básicos e a da guerra em si.

A linha da história de direitos básicos fica clara de diversas formas, seja pelos diálogos e comportamentos dos personagens – reparem em como, apesar da infinidade de defeitos, Paul ensinou ao filho a história de seu povo, de forma a fazer ele entender que a luta ali é maior do que a do outro – ou pelas técnicas que Lee usa em determinados momentos.

Por exemplo, a proporção de tela muda constantemente para indicar flashbacks, a menor proporção (a mais quadradinha), mostra cenas do passado do destacamento (onde aparece Norman) e as cenas de proporção normal, são as cenas do presente, onde vemos a história da busca dos personagens se desenrolar.

Mas, mais do que isso, a proporção também serve para mostrar como aqueles homens mudaram com o tempo e mudaram graças a presença de Norman em suas vidas. Se, no passado, como um dos personagens diz, eles aprenderam a história de seu povo, com Norman, a proporção menor indica que a consciência e conhecimentos deles sobre a história e os fatos era menor do que no presente, onde a proporção normal de tela indica o conhecimento que eles adquiriram e a consciência deles, que claramente aumentou.

Claro que eles têm defeitos, um é viciado em remédios e não confia nos companheiros, mesmo que os conheça intimamente a muito tempo, outro é abertamente um eleitor do Trump e é um pai muito ruim, outro perdeu todo o dinheiro que tinha e o último é alcoólatra. Porém, esses personagens mudam ou manifestam o desejo de mudar, algo que, como todos sabemos, é mais um direito que não é dado aos negros.

Isso não quer dizer que eles mudem e nem quer dizer que, caso mudem, que mudem para melhor, porém, Lee quer dizer que aqueles homens, assim como toda a população negra, tem o direito de não serem perfeitos e tem o direito de não terem a pressão de serem perfeitos.

Se tem um personagem que deixa isso claro é o de Delroy Lindo. Paul é um homem que é ruim de diversas formas, inclusive (e principalmente), com David, seu filho. Porém, apesar de tudo, ele sabe que é ruim (como um momento muito específico expõe) e mesmo com todos esses defeitos (não falarei de todos para evitar spoilers), ele tem plena consciência do que é ser negro.

“Eu vou escolher como morrer”, ele diz em dado momento, com o punho fechado em riste e é justamente isso que mostra como a consciência de todos ali se abriu graças a Norman. Ninguém deve escolher como um negro morre e ninguém vai escolher como um negro morre porque é direito nosso escolher isso.

Assim, o timing de lançamento de “Destacamento Blood” não poderia ser melhor, pois o momento que vivemos no mundo pede um filme assim. A nova obra de Spike Lee é mais um de seus protestos feitos em forma de filme, nesse caso, é um protesto que é sobre o respeito que é devido pelo estado a população negra, dentro de guerras que não acabam nunca, mas que passou da hora de acabar.

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