29.6.20

Crítica: Inocência Roubada

Inocência Roubada
Imagem: DIVULGAÇÃO
A arte é uma maneira de manter sãos todas as pessoas, sejam as que apenas a consomem ou aquelas que a praticam, a arte é uma forma de manter sociedade racional e pronta para desafios e realização de objetivos.

Se não fosse a dança, Odette (Andréa Bescond) não teria sobrevivido ao abuso sexual de Gilbert (Pierre Delandonchamps), pedófilo e amigo dos pais de Odette. Dirigido e escrito por Andréa Bescond e Eric Metayer, “Inocência Roubada” conta a história dessa personagem, que decide após anos sem contar para ninguém o que aconteceu, tratar do assunto em terapia, ao mesmo tempo em que continua sua carreira de dançarina.

O filme usa a montagem alternada para acompanharmos a história de Odette, o que sem dúvida é o maior acerto técnico da obra. Alternar entre o passado e o presente não é algo inédito no cinema, porém, as transições entre uma linha temporal e a outra são elegantes e conseguem manter o público na narrativa. 

Essas transições são feitas a partir do fato que está acontecendo naquele momento e o interessante é que independente de quem está envolvido no fato, a pessoa parece estar na lembrança, como, por exemplo, a própria Odette e a sua terapeuta aparecendo no meio de uma lembrança da infância da dançarina.

Ou até mesmo pessoas que já não fazem parte da vida da protagonista, como a primeira professora de dança dela falando “ela está tendo lembranças felizes, por isso está voando”. Ligar o passado e o presente dessa forma só fica mais ousado quando isso é feito dentro da imaginação de Odette, já que essa muitas vezes cria lembranças ou usa sua imaginação para fugir da realidade.

Justamente nessas fugas vemos como o abuso a mudou de todas as formas, ela é agressiva e intensa porque foi a forma de se comportar que ela encontrou com um tempo, a dança dela é forte e física (como um professor dela fala) porque é na dança que ela pode ser agressiva como deseja sem fazer nada ilegal.

Porém, esse comportamento agressivo não se dá apenas devido ao abuso, é principalmente por causa dele, sim, mas também se deve a mãe da protagonista, uma mulher agressiva e egoísta ao extremo, não só com a filha, mas com todos, reparem como ela tenta forçar o marido a ser grosso com a menina antes de qualquer coisa.

Claro que não teria como os pais de Odette saberem o que tinha acontecido com a filha, porém, a agressividade dela é um produto do abuso sofrido e da mãe ser uma pessoa ruim e é isso que faz a imaginação da protagonista ser tão fértil e se tornar a principal ferramenta para ela usar como fuga da realidade.

A soma desses fatos faz com que “Inocência Roubada” conte sua história de uma maneira complexa que é inteligível graças a montagem e as passagens de plano exemplares – os movimentos de Odette na terapia sendo a transferência para uma apresentação realizada por ela no passado recente, por exemplo – e assim, a trajetória dela se torna mais comovente do que já seria sem nenhuma dessas técnicas.

“Inocência Roubada” é um filme que traz uma mensagem importante e que infelizmente ainda precisa ser contada. A obra ainda consegue fazer mais do que isso quando escolhe uma forma elegante de contar essa história a partir de um ponto de vista artístico, onde a arte, independente de qual das várias formas de expressão, salvou uma pessoa e por si só, é uma protagonista junto com Odette.

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