23.8.20

Fantasia Festival - Crítica: Hunted

Hunted
Imagem: Fantasia Festival / Stills
Texto que faz parte da cobertura da edição 2020 do Festival Fantasia

This critic is part of Fantasia Festival 2020 coverage

“Hunted” (Caçada) nada mais é do que uma odisseia insana de caça, como diz o título. Porém, isso ocorre dentro da ação do filme, do suspense e de uma torcida inevitável do público para a protagonista (Eve, interpretada por Lucie Debay), já que é o sofrimento dela que acompanhamos.

Dirigido por Vincent Paronnaud (co-diretor de “Persepólis”), a obra conta a história de Eve, que após conhecer um homem numa festa, é sequestrada por ele e seu cúmplice. Ela é levada para a floresta, e é lá que a ação se desenrola, onde eles a caçam e ela busca matá-los de alguma forma.

É interessante como o filme relaciona as histórias que conta, seja a relatada no começo (a mulher considerada bruxa que é salva pelos lobos na mesma floresta onde Eve é caçada), a caçada principal e o fato de que homens amam homens e sentem atração sexual por mulheres.

Até porque, se pararmos para pensar, é justamente o caso dos dois assassinos que caçam a personagem principal, como, por exemplo, a cena que inseriu a floresta no filme de fato deixa claro. O homem que é o líder dos dois, não sente nenhuma atração por mulheres mas, na verdade, pelo cúmplice (ou cúmplices, pois o filme não deixa claro).

Isso justifica a escuridão da história e da fotografia. Claro que essa também é utilizada devido a boa parte das cenas serem noturnas, porém, Paronnaud usa o escuro e a noite como metáforas para mostrar esse amor de homens para homens, mas claro, ele também usa as palavras.

Pois nenhum deles, em nenhum momento, deixa de chamar Eve de “bitch” (puta). É óbvio que ela não é isso, ela é uma mulher e acima de tudo, merece respeito, porém, é a partir dessa ligação que vemos que os homens chamam Eve assim por ela ser independente.

Da mesma forma que chamavam as mulheres de bruxas na idade média, por isso é interessante que o filme estabelece essa ligação entre esses os dois termos, diferentes em semântica e significado, mas que servem igualmente em sentido como um xingamento misógino.

Logo, por mais que seja um filme que possa ser considerado feminino, já que a protagonista é uma mulher, vemos que o diretor escolheu uma abordagem de autocrítica (dadas as devidas proporções, claro), pois claramente vemos como os homens ali, novamente, dadas as devidas proporções, são estereótipos (extremos) de misoginia e o filme mostra como todos os homens (reparem na cena com o segurança do prédio e na cena com o dono do mercadinho) tem algo de misógino dentro de si.

O que cabe a nós é desconstruir isso sempre e entender que é possível mudar esse tipo de atitude. Talvez a caça principal de “Hunted” seja essa e caso seja, o filme se torna mais brilhante do que já é.

Texto que faz parte da cobertura da edição 2020 do Festival Fantasia

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