27.8.20

Fantasia Festival - Crítica: Kriya

Kriya
Imagem: Fantasia Festival / Stills
Texto que faz parte da cobertura da edição 2020 do Festival Fantasia

This critic is part of Fantasia Festival 2020 coverage

Cinema é capaz de quebrar os costumes e fazer o público refletir sobre a tradição de seu povo ou conhecer (e refletir) sobre a tradição de outro povo, de forma que descobrimos como a sociedade pode seguir coisas ruins sem pensar e como estamos mais próximos dos outros do que pensamos.

Não há dúvida de que “Kriya” realiza essa quebra e que o diretor e roteirista, Sidharth Srinivasan teve a intenção de fazer o indiano, seu povo, refletir sobre o ritual de luto abordado no filme. Neel, um DJ, é levado por Sitara para a casa dela em uma noite que parecia ser de um envolvimento casual. Ao chegar, ele descobre que o pai dela acaba de morrer e é obrigado por ela a participar do ritual mortuário. 

O costume hindu diz que apenas um filho homem pode ser o responsável pelo ritual funerário do pai e no caso de Sitara, ela é a filha mais velha em uma família sem filhos homens, logo, ela não pode realizar o ritual do próprio pai. Isso é exposto no início do filme e é essencial para a narrativa.

Pois é essa tradição que o diretor busca fazer com o que o público reflita sobre, já que uma maldição existe na família de Sitara (maldição que não posso detalhar), o que faz com que a presença de Neel seja necessária no ritual. Justamente nessa presença que o filme traz suas principais ideias.

Até porque vemos, o tempo todo, o costume ser quebrado, pelo motivo de que Sitara mesmo quando não parece, está no pleno comando da situação, o que deixa sua mãe irritada e é nesse conflito entre mãe e filha que vemos a briga entre progressismo e tradicionalismo.

Na medida em que vamos descobrindo a estrutura familiar, esse confronto fica mais claro e vemos como cada um ali tem seus próprios objetivos e que o passado de todos é algo que os incomoda plenamente. Como no caso de Neel, onde vemos que ele teve problemas com o seu pai.

Percebemos os resquícios do passado dos personagens devido a estrutura do filme, que usa o suspense e a criação de uma expectativa, para percebermos como tudo ali é mais do que um ritual, é sobre a independência de um membro jovem e mulher de uma família que claramente foi machista ao longo de sua existência.

Digo isso pois vemos que Sitara não faz o que faz para apenas conseguir quebrar a maldição que assola a família dela (e é relacionada ao fato de seus pais não terem sido capazes de conceber um filho), mas faz também para quebrar uma estrutura que levou o machismo a destruir a família dela ao longo do tempo.

Ou seja, por mais que os métodos usados (principalmente em relação a Neel no terceiro ato) não sejam os melhores, vemos que ela escolheu confrontar um passado de machismo estrutural através das ferramentas que construíram esse machismo em seu país, assim Neel não é nada mais, nada menos, do que um meio para um fim.

Por isso, é interessante que o público reflita sobre o protagonismo da obra não ser de Neel (como o diretor dá a entender principalmente na primeira meia hora), mas sim de Sitara e de sua luta por independência dentro de um sistema que não permite isso para as mulheres.

Logo, por mais que tenhamos a impressão de vermos o passado se repetir, não é isso que vemos em “Kriya”, o que o diretor nos mostra é um recomeço com a mesma base, mas não com as mesmas pessoas no comando, o que pode ou não representar um avanço, essa leitura cabe ao espectador.

“Kriya” é uma mistura de Jordan Peele com David Lynch, que mostra como um costume não é certo apenas por ser um costume e que ele pode (e nesse caso deve) ser quebrado na medida que o tempo passa. É um filme sobre passado e sobre como ele persiste, mas que não é algo inquebrável.

Texto que faz parte da cobertura da edição 2020 do Festival Fantasia

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