31.8.20

Fantasia Festival - Crítica: Undergods

Undergods
Imagem: Fantasia Festival / Stills

Texto que faz parte da cobertura da edição 2020 do Festival Fantasia

Critic who is part of Fantasia Festival 2020 coverage

Ao ver “Undergods”, escrito e dirigido por Chino Moya, é inevitável não pensar em “Filhos da Esperança” escrito e dirigido por Alfonso Cuarón, seja pela cidade onde o filme se passa e seu visual cinzento, ou pela história que conta, que soa distópica, mas é bem próxima da nossa sociedade.

Na verdade nem é uma história só, são histórias, pois o filme acompanha dois homens K (Johann Myers) e Z (Geza Rohrig). Dois catadores de corpos (isso mesmo) em uma cidade europeia que não sabemos qual é (mas que pode ser qualquer uma), eles contam histórias um para o outro de um passado nem tão distante assim e são essas que o público acompanha.

Logo, vemos uma coletânea de histórias pelas quais descobrimos (ou ao menos deduzimos) como o mundo se tornou o local onde os dois protagonistas vivem. São histórias protagonizadas por pessoas comuns, onde vemos trajetórias de ódio, violência e fanatismo ideológico.

Apenas por esse teor, percebemos como a obra é atual e como o futuro relatado no filme é mais possível e esteja mais próximo do que talvez pensamos, pois podemos dizer que campos de concentração, pessoas presas e até mesmo recolhimento de corpos já acontece com certa frequência.

Ver isso na Europa é algo que mostra como se continuarmos assim, a imagem atual e vendida pelo sistema de progresso, usando a imagética europeia, se tornará uma imagem de decadência, pois não há nada de bom que se possa tirar da cidade ali mostrada, elas estão desabitadas, as pessoas se destruíram e destruíram aos outros e as histórias ali contadas foram alguns dos poucos relatos que fizeram isso acontecer.

Por isso, o filme de Chino Moya é muito mais uma experiência do que uma história linear propriamente dita. Mesmo que essa história exista e funcione, a obra depende muito mais da experiência subjetiva do público para funcionar e de deduções que este faz durante as 1h30 de duração.

Talvez isso seja prejudicado devido a uma certa falta de ritmo no filme, uma sensação de vazio em certas cenas, que poderiam ser cortadas sem nenhum tipo de perda narrativa, porém, o importante é que a ideia principal da obra, de uma sociedade levando o mundo a decadência, está sempre presente e é fácil para o espectador fazer as deduções acima citadas.

Interessante observar que Geza Rohrig interpreta aqui um homem que é o total oposto do seu personagem em “O Filho de Saul”, por mais que eles façam a mesma coisa – o desse filme porque quer, o do filme mais antigo por obrigação. Talvez Chino Moya tenha escolhido esse ator justamente pensando nessa relação, já que em ambos os filmes vemos um tipo de decadência, uma momentânea (e que nunca deveria ter existido) e outra plenamente possível e que se constrói a cada dia.

Logo, apesar desse ponto do ritmo, “Undergods” é um filme interessante pela experiência que propõe e pelas deduções e ideias que o público pode ter durante a obra. É um filme que depende da subjetividade para funcionar, mas, caso funcione, com certeza vale a pena.

Texto que faz parte da cobertura da edição 2020 do Festival Fantasia

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