7.9.20

Crítica: Estou pensando em acabar com tudo

Estou pensando em acabar com tudo
Imagem: Netflix / DIVULGAÇÃO

“Todas as famílias felizes são iguais, as infelizes o são cada uma a sua maneira”. Essa frase inicia “Ana Karenina”, livro de Leon Tolstoi, citada em “Estou pensando em acabar com tudo” faz sentido, já que acompanhamos relacionamentos distintos, por mais que seja focado no relacionamento de Jake (Jesse Plemons) e Lucy (Jessie Buckley).

Ou seria Louisa o nome da protagonista? Ou Amy? Não sabemos, mas tudo bem, pois estamos dentro da mente de uma pessoa ansiosa. Esse é o grande ponto positivo do filme escrito e dirigido por Charlie Kaufman, já que, estando na mente de uma pessoa como Lucy, várias coisas dentro do filme se unem e formam uma metáfora sobre depressão, ansiedade e relacionamentos amorosos.

Pois, através de ângulos de câmera, design de produção e principalmente os diálogos, ficamos totalmente imersos dentro dos pensamentos daquela mulher, que causam empatia com qualquer pessoa, pois não servem apenas para relacionamentos amorosos, servem também para as amizades e, claro, para expor a dificuldade que é viver.

Logo de inicio fica claro que a cada vez que Lucy fala “estou pensando em acabar com tudo” ela não fala apenas do relacionamento com Jake, que iniciou há pouco tempo, ela também fala que está cansada de lutar contra a ansiedade e a tristeza que estão dentro dela diariamente e que por isso, pensa em acabar com tudo.

É um pensamento triste, mas é algo que assola todas as pessoas que tem o que ela tem. Kaufman expõe isso muito bem através dos relacionamentos e dos diálogos, mostrando como as pessoas são mais parecidas do que parecem ser e tem histórias mais parecidas do que pensam, por isso, Lucy quando vê as fotos de Jake na casa dos pais, se vê por simples identificação e por isso, as histórias que ela conta para os pais dele mudam brevemente.

Pois acompanhamos a jornada na mente da protagonista e vemos através do ponto de vista dela, como as pessoas, quando se relacionam, se tornam outras e isso aumenta consideravelmente para um ansioso, porque acaba gerando uma certa perda de si mesmo e por consequência, precisamos nos esforçar mais para saber quem somos.

Vemos isso nos pais de Jake e na mudança física em quando eles veem o filho. Eles estão empolgados em ver Jake e por isso, Kaufman que primeiro os mostra como idosos (o que eles são de fato), logo após os mostra como um pouco mais jovens, apenas para expor a felicidade daquele momento. Como Lucy percebe isso, o público também precisa perceber e por esse motivo vemos David Thewlis e Toni Collette dessa forma.

Porém, todas essas metáforas de ansiedade e relacionamentos, mudam no terceiro ato da projeção, se tornando exclusivamente sobre o relacionamento amoroso do casal principal. O que não é ruim, mas torna o filme um pouco estafante, pois estávamos imersos e interessados em Lucy, o que muda de repente, pois somos obrigados a ficar imersos em Jake.

Por um lado, ótimo, pois além de conhecermos mais o personagem, vemos através dele como o casal criou expectativas com base nos filmes e livros que eles discutem durante a projeção, para manter algo que talvez nenhum dos dois queira. Eles tentam encontrar dentro do que eles debatem, algo para manter o relacionamento vivo.

Em compensação, Jake é extremamente desinteressante. Tudo o que vemos é um cara que não escuta a namorada e que faz o que quer, mesmo que seja ela quem tenha a razão. Reparem na quantidade de vezes que ela fala que precisa ir embora devido ao trabalho e ele não liga, ou em como ele fica bravo por coisas sem motivo.

Logo, o público vai de uma protagonista ótima para um protagonista chato e o filme que era sobre ela, com ele como um coadjuvante importante, vira sobre ele exclusivamente. O que é algo triste, pois não temos uma conclusão para a história dela, por mais que queiramos e tenhamos esperado isso.

Ou melhor, até temos, na verdade, temos dois finais possíveis ali, porém, são focados nele e a metáfora construída nos quarenta minutos finais é perfeitamente compreensível para o público, mas temos também a racionalidade inserida naquele final, o que talvez prejudique um pouco o peso da metáfora, que é clichê (algo que Lucy condenou em certa cena), mas que faz sentido dentro do que o filme se tornou.

Portanto, “Estou pensando em acabar com tudo” é um filme com ótimas ideias e uma protagonista muito bem interpretada por Jessie Buckley, mas que parece se perder dentro de si mesmo, se tornando excessivamente intelectual e tedioso na parte final de uma obra que aborda assuntos importantes e reais para todos.

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