7.12.20

Crítica: Mank

Mank
Imagem: Netflix 

Se “Cidadão Kane” são várias histórias de uma mesma pessoa que se passam em torno de uma história principal, que é descobrir o significado da última palavra dita por Kane, “Rosebud”, “Mank” também é um amalgama de histórias que envolvem Herman J.Mankiewicz, o roteirista de Kane, em torno de uma história principal, o término e aprovação do roteiro do filme que mudou o cinema.

Eu sei que a frase “o filme que mudou o cinema” é clichê, vazia e tenta causar um forte efeito no leitor ou leitora, mas aqui ela cabe muito bem, “Cidadão Kane”, como disse a crítica Pauline Kael, “é talvez o único filme falado americano que parece tão novo quanto no dia em que estreou.” e o que David Fincher faz no filme que dirigiu é uma homenagem aquela época e ao filme que continua tão moderno quanto no dia que estreou.

Como dito brevemente no primeiro parágrafo, mas repito aqui porque não tenho o que fazer, “Mank” conta a história de... Mank (Gary Oldman) ora, enquanto este isolado do mundo em uma espécie de reabilitação (que Kael detalha no ensaio de onde tirei a citação acima, “Criando Kane”) para escrever o roteiro de Cidadão Kane. Enquanto ele escreve, o publico é convidado a acompanhar de onde ele tirou todas aquelas histórias.

Histórias que não são nada fáceis de serem contadas, principalmente porque envolvem Marion Davies (Amanda Seyfried) e principalmente, William Randolph Hearst (Charles Dance) o maior magnata da mídia na época, que, claro, fez de tudo para que o roteiro nunca passasse disso.

De certa forma, Mank escreve Cidadão Kane de forma a fazer do roteiro seu “Rosebud”, seu único apego a um mundo do qual já tinha sido excluído e também seu único legado dentro do mundo do cinema. Se Fincher reconhece isso de certa forma em seu filme, talvez seja porque essa sua nova obra, seja, de certa forma, o Rosebud dele em forma de homenagem a aquele que inventou o conceito de Rosebud.

Se Rosebud representa o conceito do apego, de conseguir tudo o que deseja e até mais do que deseja e perder tudo pelo caminho, nada melhor que Mankiewicz para criar isso, pois ele conquista tudo o que era possível na época dentro de Hollywood e o perde no meio do caminho por uma série de motivos e Fincher ainda está construindo o seu legado dentro do cinema.

Ao mesmo tempo que, se a montagem faz com que o público acompanhe aquelas várias histórias em meio a escrita do roteiro, ela também serve para mostrar como Mankiewicz não apenas tirou o roteiro de coisas que Hearst fez ou coisas que ele viu Hearst fazer por ser amigo da família, mas também de coisas que o próprio Mank fez, viu, escreveu ou falou ao longo de sua carreira.

Por isso que talvez possamos dizer que Cidadão Kane é uma espécie de amalgama de várias pessoas em seu protagonista (inclusive do próprio Orson Welles, porque não?), pois Mank não usou apenas a história de Hearst, mas principalmente a história dele, da mesma maneira que Fincher usa essa história real para de certa forma, tecer uma crítica ao sistema de Hollywood, que destrói talentos na mesma medida que os cria e os desestimula através de premiações sem nexo que não valorizam o principal da arte, que é a própria arte.

Novamente, então, volto a Pauline Kael, que diz no mesmo “Criando Kane”, “Aparentemente, a coisa mais fácil para as pessoas fazerem quando reconhecem que alguma coisa é uma obra de arte é correr aos termos adequados dos livros didáticos para as obras de arte”. O que importa, no fim, não é o que é uma obra de arte, o que faz da obra de arte uma obra de arte, mas, se a arte é feita ou não e principalmente, se é vista pelo público ou não.

Fincher acerta ao contar essa história, ao mesmo tempo que nos faz pensar sobre a forma que consumimos arte e principalmente, se valorizamos quem ajuda a fazer a arte o que ela é, seja um roteirista brilhante e altamente prolifico ou seja um espectador que pode ficar encantado ou bravo, apenas através do sentimento, com um filme.

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