14.12.20

Crítica: Meu nome é Bagdá

Meu nome é Bagdá
Imagem: DIVULGAÇÃO 

Liberdade e independência são duas coisas que todos querem, porém, caso você faça parte de um grupo que não seja o branco, homem e hétero, a possibilidade de você não conseguir isso é bem alta, pois vivemos em uma sociedade que limita as pessoas não brancas e que não são homens de toda a forma possível.

Então, “Meu nome é Bagdá” se torna um manifesto pela liberdade e um manifesto pela liberdade através do esporte, já que Bagdá (Grace Orsato) é uma jovem que está em processo de autodescoberta e de busca pela liberdade, sendo que ambas ela encontra através do skate e principalmente, através das amizades femininas que tem, que foram em sua maioria iniciadas através desse esporte.

Dirigido e escrito por Caru Alves de Souza, vemos Bagdá em busca dessa liberdade e em sua jornada de crescimento, andando de skate no bairro da Freguesia do Ó (em São Paulo) e vivendo com sua família, formada por sua mãe e mais duas irmãs (uma mais velha e outra mais nova).

Através dessa obra, o espectador percebe (caso ainda não tenha percebido por má vontade ou por não saber mesmo), que jovens negros e periféricos tem que lutar por sua liberdade e buscar encontra-la de formas não convencionais (para uma pessoa que sempre foi rica, claro), como por exemplo o esporte.

Não a toa, a diretora usa o skate como ferramenta e não apenas como traço de personalidade de Bagdá. A câmera fluida e quase sempre se mexendo, assim como a personagem principal andando de skate, mostra como a vida está sempre em movimento. As imagens isoladas do grupo andando de skate assumem um ar documental que está presente em todo filme, também representando esse movimento.

Esse ar documental é interessante pois, por mais que tenha uma narrativa fictícia, ela não é de todo fictícia. Além de ser comum, na rotina da periferia, jovens andando de skate, também é comum todas as coisas ruins que acontecem no dia a dia, por exemplo, abuso policial, como vemos em uma cena do filme.

Ou o assédio sexual, que gera o conflito final entre Bagdá e um skatista, mas serve também para mostrar como as mulheres podem e devem se unir para lutar contra o assédio e para fazer nós homens refletirmos sobre atitudes que tomamos no dia a dia, como, por exemplo (e é algo que acontece durante as 1h40 de projeção), ser amigo de alguém que vemos se comportar de maneira errada com frequência.

Porque, não adianta nada postar em rede social e não ter uma atitude prática sobre, da mesma forma que não adianta nada usar o skate para conquistar sua liberdade pessoal, mas também usar o skate para limitar a liberdade de outra pessoa, no caso, Bagdá e as outras jovens pertencentes ao grupo delas.

Caru Alves de Souza consegue expor a rotina da periferia ao mesmo tempo em que faz um retrato breve (até porque, como fazer um retrato detalhado em 1h40?) de como é ser jovem, negra e periférica em São Paulo e no Brasil como um todo. Claro que esse retrato também se estende a homens negros, mas, o ponto principal aqui é a trajetória da protagonista.

Assim, “Meu nome é Bagdá” é um dos destaques nacionais do ano não apenas por mostrar uma jornada de liberdade, mas também por mostrar como essa jornada é difícil e que temos que nos unir, nós homens, para refletir e entender que caso o nosso comportamento não seja mudado, o sistema não vai mudar nunca.

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