9.3.21

O coiote do sonho impossível – Colateral (2004)

Colateral (2004)
Imagem: DIVULGAÇÃO

 

“A vida é curta”, diz o personagem o de Tom Cruise, Vincent, em certo momento de “Colateral”, filme dirigido por Michael Mann e lançado em 2004. Pouco tempo após essa fala, que é direcionada a Max (Jamie Foxx), um coiote aparece em uma rua vazia durante a madrugada em Los Angeles, olha os dois homens adultos dentro do táxi e some.

A noite está sendo longa para Max, após ser sequestrado por Vincent e forçado a acompanhá-lo em uma sequência de assassinatos que roda a cidade, Max olha para o coiote pensando que sim, a vida é curta mesmo e que o seu coiote, naquele momento, é Vincent, que ao mesmo tempo que o faz enxergar a vida por um novo ponto de vista, também o limita, pelo óbvio motivo do sequestro.

“Colateral” é um filme sobre sonhos e principalmente, sobre sonhos não realizados, sobre como a vida é vivida com base nesses sonhos não realizados e que não o fazem seguir, mas sim, o fazem ficar parado, mesmo que esteja em constante movimento devido as circunstâncias, assim como Max, que sabe que não vai abrir sua empresa de limusines, mas sabe que será um motorista de táxi pelo resto da vida.

Talvez esse filme seja um dos que mais fala da relação entre empregado e trabalho, dentro da filmografia do Mann, e como, dependendo do caso (digo isso porque são exceções, mas existem trabalhos que não engolem o funcionário), a rotina suga Max. Ele acorda, se troca, come algo, se prepara para mais uma noite, se apoia em uma foto que representa um sonho impossível, limpa o táxi e começa mais uma jornada por Los Angeles.

Cidade que também o engole, mas não da mesma forma que seu sonho irrealizável e sua rotina, seu coiote diário, que todos nós temos. Los Angeles para Max é apenas um meio para um fim, pura e simplesmente um local onde ele anda todos os dias deixando pessoas em seus destinos. O que incomoda Max é o fato de ser uma pessoa comum, de ser mais um, de ser mais uma pessoa em Los Angeles sendo engolida e sugada pelo capitalismo.

Colateral (2004)
Imagem: DIVULGAÇÃO


Vincent o deixa consciente disso e talvez esse ponto seja o que move a relação dos dois, mais até que o sequestro e a inevitável cumplicidade que Max é obrigado a ter. Vincent fala de trabalho o tempo todo, “Você está atrapalhando o meu trabalho” e expõe pensamentos que deixam claro como, apesar da aparente liberdade e sucesso que ele tem em seu ramo – o terno alinhado, a pasta, a tecnologia que ele usa com naturalidade – ele ainda precisa fazer o que lhe foi pedido para ganhar uma remuneração, ou seja, ele é empregado de alguém, mesmo que esse alguém mude com frequência. A diferença é que ele entende a relação do sistema com ele e entende que o coiote dele é a necessidade de trabalhar, o que o força a fazer o que faz, mesmo que ele acabe por gostar daquilo.

E não se enganem, Vincent gosta, ele sente prazer em ser assassino de aluguel, ele sente tesão em matar, por mais focado que seja em reduzir mortes desnecessárias – reparem quando ele mata os dois ladrões que roubam Max no táxi – ele ainda assim gosta do que faz, mesmo que entenda o que o força a fazer aquilo, que compreenda o que é de fato o coiote.

Provavelmente os sonhos de Vincent, assim como os de Max, são impossíveis e provavelmente, em algum momento da vida dele, ele percebeu que não os realizaria e ficou bravo, bastante bravo, de forma que encontra em seu trabalho atual uma forma de alívio de stress, mesmo que seja uma maneira totalmente criminosa e errada de fazer isso.

Colateral (2004)
Imagem: DIVULGAÇÃO

Se Max escolhe a honestidade, que gera um inevitável tédio para ele, já que ele sempre segue a mesma rotina, as mesmas pessoas, as mesmas discussões dentro de um táxi apertado em uma noite quente de Los Angeles, Vincent escolhe a desonestidade, que gera para ele, provavelmente, uma sensação de adrenalina, o que o leva a seguir uma carreira criminosa, mas ainda assim, ele se relaciona com as mesmas pessoas (quem o contrata), tem as mesmas discussões (sobre trabalho e sobre o valor que lhe será pago) e acaba dentro de um táxi apertado em uma noite quente de Los Angeles.

Então, voltamos a cena do coiote, que, acredito que já tenha ficado claro se você chegou até aqui, serve como uma espécie de resumo do filme, assim como a cena da galinha, que abre “Cidade de Deus”, serve de resumo para a trajetória de Buscapé. O coiote representa um sistema, que sempre esteve e sempre estará dentro da nossa sociedade, que sempre nos olhará e saberá o que estamos fazendo e sumirá em uma rua qualquer dentro da cidade onde moramos.

Os sonhos impossíveis fazem parte dele e mantém esse sistema funcionando e o coiote andando e sumindo em um ciclo. Apesar de ser uma visão maniqueísta, dentro do ambiente de “Colateral” ou você é Max ou você é o Vincent, ou você se rende ao sistema e entende que não, você não vai conseguir, ou você abriga o sistema dentro de si e faz a escolha agressiva de lutar de alguma forma – mesmo que desonesta e criminosa – sabendo que não conseguirá realizar o seu objetivo, seja por não ter um, por gostar do sistema e lutar para mantê-lo ou, pura e simplesmente, por ter prazer na prática cruel que o faz estar ali.

Mas, no fim das contas, pouco importa a escolha que você faz quando você não tem perspectiva, afinal, tendo ou não esse ponto a seguir, devido ao sistema, ao coiote, a possibilidade de você acabar em um metrô, ensanguentado, pensando quando vão te achar ou acabar saindo desse metrô, suado, cansado, pronto para mais um dia, pleno da sua situação atual, sabendo que te consideram um ninguém, um nada, preparado para limpar seu táxi, entrar nele e explorar através de seu trabalho mais uma noite quente na cidade de Los Angeles, é bem alta e diria, provável.

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