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7/12/2021 12:00:00 AM

Cinema de Taiwan - Um momento na história

Cinema de Taiwan - Um momento na história

Yi-Yi
Yi Yi, dirigido por Edward Yang - DIVULGAÇÃO

Esse texto faz parte de uma série sobre cinema de Taiwan e cinema de Hong Kong, escrita em conjunto com Paulo Campos. O texto escrito por Paulo Campos, sobre a história de Taiwan, pode ser lido aqui.

Um cinema que retratou um momento, fechado em si mesmo, mas também com sentimento. Essa frase pode servir de resumo para descrever o cinema taiwanês, que teve seu auge com cineastas que falavam, principalmente, de suas vidas enquanto crianças ou pré-adolescentes crescendo em uma nação fundada por pessoas que fugiram de uma guerra, a entre nacionalistas x comunistas na China.

Claro que não foi apenas isso que serviu de base para o cinema de Taiwan, até porque, nenhum cinema, de nenhum lugar do mundo, tem como fundamento única e exclusivamente, um fato histórico, que de maneira justificada gerou uma série de obras interessantes. Se fosse apenas isso, não teríamos Edward Yang e Tsai Ming-Liang, teríamos “só” Hou Hsiao-Hsien.

7/05/2021 10:40:00 AM

Cinema de Hong Kong - Um cinema de busca por identidade

Cinema de Hong Kong - Um cinema de busca por identidade

Conflito Mortal
Conflito Mortal, dirigido por Wong Kar-Wai

Esse texto faz parte de uma série sobre cinema de Taiwan e cinema de Hong Kong, escrita em conjunto com Paulo Campos. O texto escrito por Paulo Campos, sobre a história de Hong Kong, pode ser lido aqui.

Não é possível falar do cinema de Hong Kong sem falar dos filmes de ação e comédia (muitas vezes juntos). O sucesso desses filmes nas bilheterias foi o que levou o cinema de HK ao sucesso de público, o que gerou, por sua vez, uma certa busca por identidade nos jovens diretores e isso, unido a reunificação de HK a China, que já estava confirmada, é algo importante para a indústria.

Se não fossem nomes como Bruce Lee, Yuen Woo-Ping, John Woo, o estúdio Shaw Brothers, Chow Yun-Fat e Jackie Chan, nomes como Wong Kar-Wai, Stanley Kwan e Ann Hui, nunca haveriam surgido e não teriam tido a importância que tem no cinema como um todo.

6/09/2021 08:23:00 PM

Sinais e reencontros – Comrades: Almost a love story (1996)

Sinais e reencontros – Comrades: Almost a love story (1996)

Comrades-Assim-Falou-Victor
Imagem: DIVULGAÇÃO

Reencontros são estranhos, imagino, e não necessariamente reencontros com pessoas ou situações, mas também com sentimentos, como, por exemplo, com a sensação de recomeço, uma nova tentativa, uma segunda chance que você pensava não ter mais, mas que de repente apareceu, sem ao menos anunciar sua chegada.

Mas mesmo que tivesse anunciado que estaria por vir, em geral as pessoas não têm tempo para ler os sinais. Trabalho, lazer, obrigações, a vida na cidade grande impede que você tenha tempo para reflexão, autoconhecimento e leitura dos sinais que estão ao seu redor, isso é, se eles de fato estiverem lá.

Porque pode ser que não estejam lá e em “Comrades – Almost a love story” (dirigido por Peter Chan) os sinais iam e viam, assim como Li Qiao e Li XiaoJun (Maggie Cheung e Leon Lai, respectivamente) iam e viam nas vidas um do outro. Ambos tentando uma vida melhor em Hong Kong, se conhecem e se identificam, apesar de seus objetivos diferentes. Ele, quer trazer a namorada para a cidade e ela apenas quer ser rica e bem-sucedida financeiramente.

Porém, os sinais estavam lá e eles os transformaram em uma história, história que assim como todas as trajetórias de todas as pessoas que moram em grandes cidades, são unidas por aspectos em comum e principalmente, por velocidade e falta de tempo. A velocidade em fazer tudo o que você precisa fazer o mais rápido possível e bom, a falta de tempo tradicional que uma vida atribulada causa, impede que o amor nasça na maioria dos casos.

Onde justamente entra os aspectos em comum e eles não precisam ser necessariamente grandes, podem ser pequenos, como perceber que uma pessoa é sozinha e mesmo sabendo que ela está te dando um golpe usando uma matrícula de escola de inglês, “cair” nele, apenas para ter com quem conversar, ou gostarem de uma diva pop e a usarem como modo de passar mais tempo juntos.

Comrades-Assim-Falou-Victor
Imagem: DIVULGAÇÃO

Ou, pura e simplesmente, admitirem um para o outro que apesar das histórias diferentes, dos caminhos diferentes, da velocidade da vida e dos sinais que estão lá para serem lidos e os impedirem de se unir, que eles se amam e não querem ser apenas companheiros no sentido de amizade, eles querem uma vida juntos, mesmo que para isso precisem de vários recomeços e reencontros.

Esses reencontros acontecem apenas devido a problemas, que ambos têm, mas eles são de certa forma forçados por aqueles pequenos aspectos em comum, que são alguns dos sinais que estão entre os dois, prontos para serem lidos. Eles acontecerão, quer queira ou não e nem sempre você, assim como o casal do filme, estará pronto para lidar com isso, mas o ponto principal é se você lida ou não.

“Nunca fui um homem corajoso”, diz em certo momento o protagonista, porque ele sabe que não lida com os sinais que lhe são dados da forma com a qual deve lidar. Ele tem medo do mundo, da vida e por mais que muitas pessoas neguem sentir isso, todos nós temos esse medo e assim como o personagem, não lidamos com ele da forma correta, nos escondemos, temos saudade de algo e não lutamos por aquilo.

Não necessariamente porque não queremos lutar, mas sim por fazermos uma leitura errada dos sinais que nos são oferecidos. Li XiaoJun fez isso em uma série de momentos, principalmente no que diz respeito a desistência de sua vida passada (na sua cidade natal) em relação a sua vida atual (em Hong Kong) com Li Qiao, que também fez isso em relação a várias coisas. A má leitura de sinais em comum de ambos foi ligada ao sentimento de um pelo outro.

Eles se gostam, então por que não ficam juntos? Pelos projetos individuais. Mas esses projetos não poderiam ser interligados, mesmo que feitos individualmente, desde que houvesse a cumplicidade de ambos? Sim. E é aí que está o ponto, as contradições naturais de cada um de nós e dúvidas como essas que foram escritas nesse parágrafo, não deixam as pessoas agirem racionalmente e quando elas agem por impulso, em geral as coisas dão errado.

Não que agir por impulso seja ruim, muito pelo contrário, mas tanto o impulso quanto o racional podem estar ligados, se não fossem nossas rotinas atribuladas de moradores de cidade grande, a falta de tempo, o não refletirmos sobre nós mesmos e sobre o próximo, tudo poderia ser melhor.

Comrades-Assim-Falou-Victor
Imagem: DIVULGAÇÃO

Algo que faz as coisas serem melhores é o acaso, o acaso que está presente em vários sinais e aspectos em comum, como, por exemplo, gostarem de uma diva pop e a usarem para passar mais tempo juntos, algo que pode servir como ponto de união entre duas pessoas independente do lugar onde estejam, em Hong Kong ou em Nova Iorque.

Ou seja, um reencontro. Uma coisa pequena, um sinal mínimo, algo bobo, pode gerar um reencontro que tanto Li Qiao, quanto Li XiaoJun, precisavam e queriam, da mesma forma que isso pode acontecer com a gente, mesmo que sigamos caminhos diferentes, mesmo que não consigamos ler os sinais da forma correta e, principalmente, mesmo se nos rendermos a solidão por pura e simples falta de opção.

A solidão é um caminho, a tristeza também e as vezes é apenas isso que nos é oferecido, mas, as vezes surgem uns sinais entre um ponto e outro, que caso nós aproveitemos, caso nós tenhamos tempo para ler esses sinais, algo bom pode surgir, mesmo com o caminho percorrido antes.

No fim, poderemos estar numa rua, parados em frente a uma loja, vendo uma notícia da diva pop que gostávamos e quando olharmos um para o lado, percebermos que apesar de tudo que envolve uma vida na cidade grande e todo o caminho, as más leituras dos sinais, a pessoa que queremos e não sabíamos (ou sabíamos) está do nosso lado.

Isso é, se deixou de estar em algum momento. Pois, caso contrário, o reencontro era apenas uma questão de tempo. Mas, tempo, dentro da rotina atribulada?

Melhor parar por aqui, está... repetitivo.

5/17/2021 08:49:00 AM

A primeira vez de todos os dias - Yi Yi (2000)

A primeira vez de todos os dias - Yi Yi (2000)


Yi-Yi-1
Imagem: DIVULGAÇÃO

“Todo dia é uma primeira vez”. Sim, todo dia é uma primeira vez e toda vida é uma sequência de primeiras vezes, onde, nas mais diversas idades pelas quais passamos, vamos descobrindo novas coisas, nem sempre boas, mas nem sempre ruins e com o passar do tempo, na medida do possível aprendemos a lidar com essas coisas e fazemos escolhas.

No momento, esse crítico não passa por nenhuma primeira vez, até porque, a tristeza em mim, no nível atual, não é algo inédito na minha vida, porém, querendo ou não, “todo dia é uma primeira vez” e pela primeira vez eu vi um filme sobre isso, esse ciclo indescritível de começos, “Yi Yi”, de Edward Yang.

3/09/2021 08:03:00 PM

O coiote do sonho impossível – Colateral (2004)

O coiote do sonho impossível – Colateral (2004)

Colateral (2004)
Imagem: DIVULGAÇÃO

 

“A vida é curta”, diz o personagem o de Tom Cruise, Vincent, em certo momento de “Colateral”, filme dirigido por Michael Mann e lançado em 2004. Pouco tempo após essa fala, que é direcionada a Max (Jamie Foxx), um coiote aparece em uma rua vazia durante a madrugada em Los Angeles, olha os dois homens adultos dentro do táxi e some.

A noite está sendo longa para Max, após ser sequestrado por Vincent e forçado a acompanhá-lo em uma sequência de assassinatos que roda a cidade, Max olha para o coiote pensando que sim, a vida é curta mesmo e que o seu coiote, naquele momento, é Vincent, que ao mesmo tempo que o faz enxergar a vida por um novo ponto de vista, também o limita, pelo óbvio motivo do sequestro.

“Colateral” é um filme sobre sonhos e principalmente, sobre sonhos não realizados, sobre como a vida é vivida com base nesses sonhos não realizados e que não o fazem seguir, mas sim, o fazem ficar parado, mesmo que esteja em constante movimento devido as circunstâncias, assim como Max, que sabe que não vai abrir sua empresa de limusines, mas sabe que será um motorista de táxi pelo resto da vida.

Talvez esse filme seja um dos que mais fala da relação entre empregado e trabalho, dentro da filmografia do Mann, e como, dependendo do caso (digo isso porque são exceções, mas existem trabalhos que não engolem o funcionário), a rotina suga Max. Ele acorda, se troca, come algo, se prepara para mais uma noite, se apoia em uma foto que representa um sonho impossível, limpa o táxi e começa mais uma jornada por Los Angeles.

Cidade que também o engole, mas não da mesma forma que seu sonho irrealizável e sua rotina, seu coiote diário, que todos nós temos. Los Angeles para Max é apenas um meio para um fim, pura e simplesmente um local onde ele anda todos os dias deixando pessoas em seus destinos. O que incomoda Max é o fato de ser uma pessoa comum, de ser mais um, de ser mais uma pessoa em Los Angeles sendo engolida e sugada pelo capitalismo.

Colateral (2004)
Imagem: DIVULGAÇÃO


Vincent o deixa consciente disso e talvez esse ponto seja o que move a relação dos dois, mais até que o sequestro e a inevitável cumplicidade que Max é obrigado a ter. Vincent fala de trabalho o tempo todo, “Você está atrapalhando o meu trabalho” e expõe pensamentos que deixam claro como, apesar da aparente liberdade e sucesso que ele tem em seu ramo – o terno alinhado, a pasta, a tecnologia que ele usa com naturalidade – ele ainda precisa fazer o que lhe foi pedido para ganhar uma remuneração, ou seja, ele é empregado de alguém, mesmo que esse alguém mude com frequência. A diferença é que ele entende a relação do sistema com ele e entende que o coiote dele é a necessidade de trabalhar, o que o força a fazer o que faz, mesmo que ele acabe por gostar daquilo.

E não se enganem, Vincent gosta, ele sente prazer em ser assassino de aluguel, ele sente tesão em matar, por mais focado que seja em reduzir mortes desnecessárias – reparem quando ele mata os dois ladrões que roubam Max no táxi – ele ainda assim gosta do que faz, mesmo que entenda o que o força a fazer aquilo, que compreenda o que é de fato o coiote.

Provavelmente os sonhos de Vincent, assim como os de Max, são impossíveis e provavelmente, em algum momento da vida dele, ele percebeu que não os realizaria e ficou bravo, bastante bravo, de forma que encontra em seu trabalho atual uma forma de alívio de stress, mesmo que seja uma maneira totalmente criminosa e errada de fazer isso.

Colateral (2004)
Imagem: DIVULGAÇÃO

Se Max escolhe a honestidade, que gera um inevitável tédio para ele, já que ele sempre segue a mesma rotina, as mesmas pessoas, as mesmas discussões dentro de um táxi apertado em uma noite quente de Los Angeles, Vincent escolhe a desonestidade, que gera para ele, provavelmente, uma sensação de adrenalina, o que o leva a seguir uma carreira criminosa, mas ainda assim, ele se relaciona com as mesmas pessoas (quem o contrata), tem as mesmas discussões (sobre trabalho e sobre o valor que lhe será pago) e acaba dentro de um táxi apertado em uma noite quente de Los Angeles.

Então, voltamos a cena do coiote, que, acredito que já tenha ficado claro se você chegou até aqui, serve como uma espécie de resumo do filme, assim como a cena da galinha, que abre “Cidade de Deus”, serve de resumo para a trajetória de Buscapé. O coiote representa um sistema, que sempre esteve e sempre estará dentro da nossa sociedade, que sempre nos olhará e saberá o que estamos fazendo e sumirá em uma rua qualquer dentro da cidade onde moramos.

Os sonhos impossíveis fazem parte dele e mantém esse sistema funcionando e o coiote andando e sumindo em um ciclo. Apesar de ser uma visão maniqueísta, dentro do ambiente de “Colateral” ou você é Max ou você é o Vincent, ou você se rende ao sistema e entende que não, você não vai conseguir, ou você abriga o sistema dentro de si e faz a escolha agressiva de lutar de alguma forma – mesmo que desonesta e criminosa – sabendo que não conseguirá realizar o seu objetivo, seja por não ter um, por gostar do sistema e lutar para mantê-lo ou, pura e simplesmente, por ter prazer na prática cruel que o faz estar ali.

Mas, no fim das contas, pouco importa a escolha que você faz quando você não tem perspectiva, afinal, tendo ou não esse ponto a seguir, devido ao sistema, ao coiote, a possibilidade de você acabar em um metrô, ensanguentado, pensando quando vão te achar ou acabar saindo desse metrô, suado, cansado, pronto para mais um dia, pleno da sua situação atual, sabendo que te consideram um ninguém, um nada, preparado para limpar seu táxi, entrar nele e explorar através de seu trabalho mais uma noite quente na cidade de Los Angeles, é bem alta e diria, provável.

2/05/2021 07:09:00 PM

Velocidade, acaso e amor, Amores Expressos (1994)

Velocidade, acaso e amor, Amores Expressos (1994)

Amores Expressos
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Eu não sei como é viver em cidades de médio ou pequeno porte, sempre vivi em uma cidade grande, uma capital de grande porte. Em capitais, a vida, a rotina, passa muito rápido, tudo, trabalho, lazer, amizades e claro, amor.

A velocidade é característica, traço da rotina e Wong Kar-Wai, em "Amores Expressos" mostra justamente isso, como a velocidade e os constantes prazos de validade com que vivemos nos engolem em tudo, tudo mesmo e pensar que isso não mudou em relação a um filme lançado nos anos 90, é assustador.

Assustador porque as pessoas precisam de tempo. A frase pode parecer clichê e talvez seja, mas é verdade. Precisamos de tempo para nos adequar, para criar rotinas, para desenvolver algo que nem sabemos o que é e para apenas, pura e simplesmente, seguirmos em frente.

Seguir em frente não é fácil e como dito, somos engolidos o tempo todo por aquilo que mais precisamos. É inevitável, cruzamos com pessoas todos os dias e como Kar-Wai bem diz, algumas delas nem as conheceremos, outras podem virar nossas amigas. E assim vai, dentro do nosso tempo, do nosso caminho a percorrer, estamos dentro dessa velocidade, onde a usamos como característica e não como ferramenta.

Prestando atenção no filme, é notável como, apesar de triste, justamente por expor essa velocidade que existe nas rotinas de cada um e expor isso em uma cidade grande, a obra é divertida. Damos risada em determinadas cenas pois tudo aquilo é tão real, mesmo o que é irreal, que ficamos entretidos por empatia com aqueles personagens, por mais que a intenção, acredito, seja outra.

Aquilo é real porque aquelas pessoas são nós, que trabalhamos todos os dias, que queremos algo mais que nem sabemos o que é e que dentro das rotinas e das velocidades (cada vez maiores) das nossas vidas, queremos algo que nos alivie, qualquer coisa. Pode ser uma corrida para suar e não chorar antes de dormir, pode ser uma lata de abacaxi próxima da data de validade ou pode ser uma música que fale sobre sonhos.

Amores Expressos
Imagem: DIVULGAÇÃO

Sonhos esses que tem data de validade, isso é, quando eles existem e se eles chegarem a existir em algum momento. Data de validade que está presente até mesmo na velocidade das nossas vidas, vidas, que assim como as rotinas e o tempo, acabam mais cedo ou tarde.

Não à toa, o filme vai se tornando cada vez mais complicado, pois aquelas pessoas ali, sejam os policiais, a mulher de peruca loira ou a personagem de Faye Wong, tem desejos, vontades, sonhos, completamente diferentes, mas que se cruzam em algum momento por algum acaso, que pode ser ou não, aproveitado pelas pessoas envolvidas nessas situações.

Esses acasos são tão reais, que, repetindo frase, se tornam irreais. Qual a possibilidade, de um ponto de vista racional, de um policial se apaixonar por uma criminosa que acabou de conhecer, mas que não sabe que é criminosa? Qual a possibilidade de um homem, que namorou uma aeromoça, se apaixonar por uma pessoa, que retribui, que tem o sonho de virar uma aeromoça?

A resposta está na primeira pergunta, “ponto de vista racional”, a racionalidade não cabe em acasos, pois, caso coubessem, seriam situações previsíveis e dentro da velocidade das vidas, situações previsíveis são cada vez mais incomuns, o acaso nos domina, a coincidência, por mais que muitas pessoas não acreditem nela, é o que comanda.

Talvez seja por isso que “Amores Expressos” funciona tão bem, pois vemos uma sequência de acasos, que envolvem quatro pessoas completamente diversas. Curioso pensar que vemos essas quatro pessoas (ou até outras pessoas que participam da vida delas) durante o filme todo, mas de forma meio “escondida” por Kar-Wai.

Digo escondida porque elas aparecem juntas em um momento, passando pelo personagem que é o foco naquela cena. Faye Wong cruzando o caminho da mulher de peruca loira, quando esta está na loja, o fornecedor estrangeiro de drogas dessa mulher, passando por Tony Leung (o segundo policial) quando ele está parado.

Amores Expressos
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As pessoas se cruzam o tempo todo, através de acasos, não apenas por elas viverem no mesmo bairro, como é o caso ali, mas porque é isso que acontece, todos os dias, com todos nós, a todo momento, mas devido a velocidade na qual vivemos imersos, não damos atenção a isso, pois precisamos pensar no que temos que fazer naquele momento ali, a coincidência natural passa batida, porque a rotina nos engole, o prazo de validade nos engole, o tempo nos engole.

Infelizmente, é isso. E vai ser sempre assim, tudo será expresso, tudo, até o que nós pensamos não ser, será expresso, acabará em 2min como “California Dreamin”, não fará diferença no dia seguinte e você vai perder a batalha. Os sonhos, como diz Clint Eastwood em “As pontes de Madison”, não se realizaram, mas foi bom tê-los.

Isso é, caso você tenha tido, claro. Os personagens do filme tiveram, mesmo que não estivessem conscientes disso. A mulher de capa de chuva queria ser rica, o primeiro policial, Zhiwu, queria ser feliz (de forma inconsciente), Tony Leung, o segundo policial e Faye Wong, queriam a California, queriam um destino juntos, por isso que não importa o destino daquele cartão de embarque borrado e refeito pela personagem, ele só quer ir aonde a personagem dela esteja.

Dentro das nossas vidas, dentro da vida dos personagens do filme, tudo é, como já dito, expresso, rápido. Não vou dizer que não gosto disso, pois eu, pessoalmente, pouco me importo, quero que passe rápido mesmo, mas ainda assim cansa viver dentro da velocidade, desse prazo de validade que não sabemos quando acaba e dentro de uma real e continua coincidência, disfarçada por nós mesmos de racionalidade.

Está claro que “Amores Expressos” é o filme de Wong Kar-Wai que mais expõe essa velocidade, assim como está claro que tudo é expresso, mas, principalmente, que somos os abacaxis que Zhiwu come em certa cena, próximos de ter o prazo de validade expirado.

Que escutemos California Dreamin tal qual Faye Wong e que dentro da velocidade e da coincidência, preenchamos o destino do nosso cartão de embarque, mesmo que seja triste (e para muitos será, eu incluso), da forma que desejarmos.

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