25.8.21

Fantasia Festival: Hand rolled cigarettes

Hand rolled cigarettes
Imagem: DIVULGAÇÃO

Texto que faz parte da cobertura da edição 2021 do Festival Fantasia

This critic is part of Fantasia Festival 2021 coverage

Em todo o momento de nossas vidas é possível se redimir de algo, mesmo que façamos isso de maneira inconsciente e pensando que essa redenção nem é exatamente a sua vontade, mas, ainda assim as atitudes que você toma te levam a isso e, principalmente, te levam a seguir em frente.

O símbolo disso em “Hand rolled cigarettes” é justamente o que representa o título do filme, o cigarro enrolado a mão pelo protagonista (interpretado por Gordon Lam). Ex membro do exército, ele se envolve com o crime organizado e tráfico de drogas, o que o leva a conhecer um jovem traficante que fez um negócio que deu errado e eles acabam se ajudando de diversas formas.

Dirigido por Kin Long Chan, vemos a jornada desses personagens em busca de corrigir erros passados, que sabem ser impossíveis de serem 100% arrumados (como tudo na vida), mas tem consciência de que é possível seguir em frente e seguir em paz desde que façam algo para isso acontecer.

No caso do jovem, o principal motivo de sua redenção (ele entrou para o tráfico como única opção de botar comida na mesa), é o seu irmão mais novo, para quem deseja dar as oportunidades que ele mesmo não teve. Todo o dinheiro que ganha, é destinado para a criação do irmão, por mais que seja um dinheiro adquirido de uma maneira errada.

Mas, ao menos o motivo é justo e pelo menos ele tem a consciência de sua profissão e de sua principal motivação. Por outro lado, se vemos no jovem a certeza, a confirmação de que faz isso por uma boa razão, vemos no homem mais velho uma confusão que parece eterna, assim como o caminhar daquela tartaruga (comprada por ele no começo do filme), devagar, mas constante.

Isso porque ele vem carregando essa confusão desde jovem, quando ainda era membro do exército (como o filme mostra logo de cara, expondo o fato histórico que mudou a vida do exército de Hong Kong quando a cidade se separou da China). As amizades que ele fez nessa época, ele não conseguiu manter, por mais que ainda tenha contato com as pessoas, devido aos erros cometidos nesse meio tempo.

Claramente esse é o principal ponto de identificação do público com o personagem e é o motivo de sua redenção ter o peso que tem, tanto para a narrativa, quanto para o espectador. Por mais que o fator originário do erro do protagonista seja algo meio distante do público (nem todos nós somos ou fomos soldados), a persistência no erro é um ponto que em algum momento de nossas vidas, nós fizemos com força o suficiente para afetar nossas trajetórias nesse mundo de maneira considerável.

Talvez por isso esse personagem insista no cigarro feito a mão, porque é o mesmo que ele fumava quando estava no exército, numa tentativa rasa e até mesmo boba, de lembrar do que não fez ao invés de focar naquilo que pode fazer, como muitos de nós já fizemos ou ainda faremos.

Assim, “Hand rolled cigarettes” apresenta essa redenção bem construída, fazendo com que o público entenda coisas e veja algo em si mesmo que há muito tempo pode ter abandonado. Talvez, como linguagem, o filme não apresente nada de inédito ou algo assim, mas é bom ver a ideia da redenção centrada em uma amizade de diferentes gerações e ambientes de crescimento.

Texto que faz parte da cobertura da edição 2021 do Festival Fantasia

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