29.9.21

Crítica: 007 - Sem tempo para morrer

007 - Sem tempo para morrer
Imagem: DIVULGAÇÃO

Em dado momento de 2020, decidi rever todos os 007 devido ao lançamento do filme desta crítica, “Sem tempo para morrer”, dirigido por Cary Fukunaga. Eu não precisava ter visto, porque me lembro de todos os filmes. Lembro da classe de Connery, do único filme de Lazenby, das quase comédias do Moore, da ousada repaginada de Dalton, do saudosismo de Brosnan e de Daniel Craig.

Este último chama atenção por uma série de motivos. Com exceção de Moore, os atores que fazem 007 são homens considerados bonitos ou ao menos com algo de magnético, que hipnotize as pessoas de alguma forma. Não é o caso de Craig, um homem feio, sem nenhum tipo de charme e que muitos consideravam um fracasso no papel mesmo antes de Cassino Royale.

Se em 2006, vemos um Craig com uma atuação absolutamente física, que tem seu auge em Quantum of Solace, desde Skyfall, vemos um 007 menos físico, mas muito mais inteligente no que diz respeito a ação. “Sem tempo para morrer” é um filme que trabalha com isso e entende que o público da franquia mudou. Craig é o 007 da minha geração, a geração que fala de saúde mental, que luta por direitos sempre negados e que entende a vulnerabilidade de cada um de nós.

Esta é a principal sensação do último papel de Craig na franquia. Vulnerabilidade. Após a sua aposentadoria em Spectre, Bond vive com Madeleine (Lea Seydoux) e atacado pela organização comandada por Blofeld (Christoph Waltz), o agente volta a ativa, quando uma ameaça significativa entra em pauta e ele acredita ter sido traído por alguém que amava.

Tudo neste filme remete a despedida do ator do papel e de certa maneira, todo filme do 007 é uma despedida pois todos se despedem do papel a cada final das obras, mesmo que sejam os primeiros filmes destes, pois cada filme é particular. Connery, Brosnan, Moore, Dalton, Lazenby, as despedidas desses atores estão presentes de certa forma em “Sem tempo para morrer”.

Inclusive as de Craig. Lembramos da morte de Eva Green em Cassino Royale em uma cena do novo filme, vemos como é difícil esquecer desta e esquecer de seu passado como agente, como pessoa, através da relação de Bond com Paloma (Ana de Armas) e Nomi (Lashana Lynch), que fazem com que o agente se desafie, isso também serve para descrever todas as cenas com Madeleine, pois um amor é difícil de esquecer e Bond teve amores demais em seus filmes.

Mas não o Bond de Craig e é aqui que Fukunaga conquista o público. Assim como Martin Campbell em Casino Royale (“Martini” “Batido ou mexido?” “Foda-se o jeito”), Fukunaga usa os trejeitos tradicionais de Bond, como as falas e as características para mostrar ao público que Craig terminou a repaginada que a franquia tanto precisava.

Se a fala “Bond, James Bond” antes representava uma apresentação charmosa, porém desnecessária, aqui, a fala representa algo que o agente quer esquecer: da sua profissão. O smoking e a sedução das mulheres ficam em segundo plano quando Ana de Armas entrega a roupa para Bond, com aquele jeito ingênuo que ficou ótimo para a personagem e olha para ele com um olhar inocente, mas apontando como aquela situação é incomum.

Porque quem salva o mundo com uma roupa tão desconfortável como um smoking e estando meio bêbado de martini? O 007 de Craig e a direção de Fukunaga expõe isso muito bem, é um homem altamente capacitado, mas vulnerável como todos nós. O diretor não esconde a velhice do ator para o papel e não há problema algum nisso, porque as pessoas envelhecem, ora, é natural da vida.

Da mesma forma que é natural não esquecer daquilo que se ama. Bond nunca esqueceu Vesper Lynd, nem a M de Judi Dench e não consegue esquecer a Madeleine cuja cena inicial deste filme além de linda, representa uma outra quebra paradigmática e as artes na abertura, assim como um determinado quadro na sequência final (quando ele se vira para dar um tiro), mostram que esquecer é difícil, inclusive para nós, espectadores.

Que teremos de esquecer de Craig, assim como tivemos de esquecer de todos os outros atores antes dele. A abertura de “Sem tempo para morrer” já começa a trabalhar isso no público, vemos as cartas de Cassino Royale, a ação desenfreada de Quantum of Solace, o afeto de Skyfall, a bagunça divertida de Spectre e as várias despedidas que o novo filme promove ao mesmo tempo em que se lembra de todas as outras.

Pois há vários planos que remetem a outros filmes, além da apresentação da personagem de Lashana Lynch e temos uma nova quebra de modelo. Bond raramente pede ajuda, mas o Bond de Craig não tem vergonha de demonstrar que precisa de alguém, nos seus filmes a ajuda é algo comum. A ajuda de Felix (Jeffrey Wright), de M (Ralph Fiennes), da Moneypenny (Naomie Harris) e a de Q (Ben Whishaw). Nós esperamos essas pessoas aparecerem não apenas como recursos narrativos bobos, como nos filmes antigos, mas de fato aparecerem como algo ativo e funcional.

Nomi não é diferente. Agente ativa e altamente capacitada, ela faz parte da ação de maneira completa, assim como Madeleine que também quebra o estereotipo da Bond Girl que apenas está lá para ser tratada como objeto. Por mais que tanto Lynch, de Armas, Harris e Seydoux, não tenham tanto tempo de tela assim, quando elas aparecem, elas de fato estão lá, não são apenas um tropo narrativo bobo.

E se elas têm esse tempo de tela reduzido, assim como M e Q, é porque Fukunaga torna esse filme o filme de Craig, que tem o maior tempo de tela e aproveita plenamente, tratando o personagem como ele merece e como ele mesmo o reconstruiu, sem esconder suas falhas, sentimentos e vontade de esquecer de tudo o que passou e focar naquilo que pode deixar como legado.

Como diz Safin (Rami Malek) em dado momento deste filme. O que importa é o que nós deixaremos como legado e o Bond de Craig deixa coisas muito importantes para o cinema de ação, é possível usar mais a inteligência do que a força, é possível ter afeto em um filme desse gênero, é possível que James Bond de fato ame e é perfeitamente possível que, como “Sem tempo para morrer” faz, a ação discuta e debata constantemente com o seu público o papel do tempo em nossas vidas.

Craig deixa esse legado e torna difícil a tarefa do próximo filme de manter isso. Em “Sem tempo para morrer” temos mais tempo do que podíamos esperar para pensar em uma série de coisas. Eu, pensei em 2020 e na maratona desnecessária, mas incrível, que realizei como preparação para assistir ao filme assunto dessa crítica, pensei que algo que provavelmente ajudou meu pai a crescer, também faz parte de mim como pessoa, pensei que o cinema tem a força de aproximação que talvez nenhuma arte tenha e pensei que Craig é, provavelmente, o melhor 007 depois de Connery.

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