16.8.21

Fantasia Festival: Satoshi Kon, The Illusionist

Satoshi Kon, The Illusionist
Imagem: DIVULGAÇÃO

Texto que faz parte da cobertura da edição 2021 do Festival Fantasia

This critic is part of Fantasia Festival 2021 coverage

Talvez a estrutura escolhida pelo diretor Pascal Alex-Vincent para abordar a vida de Satoshi Kon nesse documentário não tenha sido a melhor. Não digo isso em um sentido ruim, por mais irônico que possa parecer, digo por que a estrutura é a de um documentário convencional e Kon, diretor e animador, podia ser tudo, menos convencional.

Claro, não estou aqui para dizer como um diretor de cinema poderia melhorar o seu filme, seria de um pedantismo absurdo. A partir disso, o documentário “Satoshi Kon – The Illusionist” pode até ser isso que foi citado em relação a linguagem, mas não é nada disso em relação a ideia e aos depoimentos dos entrevistados.

Pois se esse documentário funciona, é devido a qualidade das falas das fontes entrevistadas pelo diretor e como essas oferecem novas camadas de profundidade aos filmes de Satoshi Kon. Vemos como ele afetou vidas de maneiras diferentes, mesmo sendo uma pessoa muitas vezes grosseira, que buscava a perfeição (como é dito em uma das falas), ao mesmo tempo em que não romantiza isso.

Romantizar a perfeição seria algo ruim porque essa não existe e os próprios filmes de Satoshi Kon (principalmente “Perfect Blue”) falam sobre isso. Logo, abordar esse traço de personalidade do diretor dessa maneira torna o resultado do documentário como um todo interessante, ao misturar vários pontos de vista sobre esse ponto através das ideias de várias pessoas.

Talvez, a principal força do filme dirigido por Alex-Vincent esteja nos seus vinte minutos finais, onde vemos, provavelmente, a presença de Satoshi Kon naquelas pessoas ali. Todas com depoimentos diferentes e personalidades diferentes, mas unidas através da carta de despedida postada no blog do diretor após seu falecimento em 2010.

Essa união tem um desejo em comum, saber o que iria ser o próximo filme do diretor, “Dreaming Machine”, que já estava nos rascunhos e em pré-produção quando Kon faleceu e de acordo com alguns entrevistados, houve alguns problemas em relação a equipe e ao tratamento dessa por Kon. Porém, mesmo com isso, todos ali estavam unidos para a preparação daquele filme, daquele sonho em comum.

Não há como saber a ideia que Kon gostaria de passar com “Dreaming Machine”, mas poderia ser algo, deduzindo apenas pelo título, relacionado a sonhos e expectativas. Nenhuma arte é mais significativa na transmissão e compreensão de sonhos por parte do público do que o cinema. O poder da imagem (e no caso de Kon, da animação) é uma ferramenta construtora de sonhos e fantasia.

Nenhum diretor é melhor que Kon nisso, é só assistir filmes dele, ou ao menos “Paprika” (seu último trabalho, lançado em 2006), para percebermos como na opinião do diretor, os sonhos não eram apenas uma ferramenta fílmica (assim como a animação), mas é uma forma de expressão gerada por nós mesmos a partir de nossas experiências. Ele tentava passar isso para as pessoas na tela do cinema e  nesse aspecto, claramente ele foi muito bem-sucedido, inspirando gente ao redor do mundo.

Todo realizador, profissional de arte, de certa maneira é um ilusionista, um mágico e o filme de Pascal Alex-Vincent se aprofunda em um deles, um dos mais conhecidos, mas que ainda poderia ser mais conhecido, principalmente quando falamos de experimentações na linguagem cinematográfica. Em tempos de automatismo de estúdios e algoritmos, um diretor como Satoshi Kon é no mínimo singular e isso já é algo acima da média.

Texto que faz parte da cobertura da edição 2021 do Festival Fantasia

This critic is part of Fantasia Festival 2021 coverage

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