14.8.21

Festival de Locarno: Curtas: A Máquina Infernal + Fantasma Neon


Dois curtas nacionais presentes no Festival de Locarno em 2021, "A máquina infernal" de Francis Vogner dos Reis e "Fantasma Neon" de Leonardo Martinelli. Ambos falam sobre o capitalismo de formas diferentes, mas igualmente interessantes, típicas do cinema brasileiro.

A Máquina Infernal
Imagem: DIVULGAÇÃO
A Máquina Infernal

Todos nós temos coisas que nos consomem, a ponto de não sabermos diferenciar o que é bom e o que é ruim, principalmente quando o terror toma conta de nossas vidas em forma de um sistema que nos obriga a agir de maneiras que não queremos para termos o mínimo daquilo que precisamos, ou seja: empregos são necessários por pura necessidade de sobrevivência.

“A Máquina Infernal” não é sobre apenas uma das máquinas pertencentes a fábrica onde a protagonista trabalha que faz um barulho estranho. O curta de Francis Vogner dos Reis é, principalmente, sobre o espaço dentro de nós onde habitam os desejos e as vontades. Espaço esse que é dominado pela sobrevivência quando não se é uma pessoa rica.

A fábrica retratada no filme poderia ser um ambiente melhor caso várias coisas acontecessem, como, por exemplo, os pagamentos dos funcionários, que se fosse em dia, nada daquilo seria um problema, nem mesmo a preocupação dos empregados em relação a maquinaria sem manutenção.

Porque todos nós buscamos algo que preencha a gente e vemos muito disso na protagonista. Ela busca no amor no companheiro de trabalho, busca entender o que está acontecendo com a máquina e claro, busca no emprego uma estabilidade que é desejada por todo mundo que tem a necessidade do salário todo começo de mês.

Se esse curta tem algo que o represente fisicamente, esse algo é a mão de metal do companheiro da protagonista. Essa mão é o acidente que ele sofreu, é o emprego ruim, é a necessidade da sobrevivência e claro, é o toque, o consumo desejado, o amor, a vida e é isso que fica no final dos trinta minutos: a vida.

Fantasma Neon
Imagem: DIVULGAÇÃO

Fantasma Neon

Todos nós somos de certa forma fantasmas em nossas próprias cidades, principalmente aqueles que vivem nas capitais do país. Rodeados de pessoas (quando permitido e seguro, claro) basicamente o tempo todo, mas ao mesmo tempo se sentindo sozinhos em meio aos prédios e estruturas do local onde moramos.

“Fantasma Neon”, é sobre isso mas também é sobre mais. O filme de Leonardo Martinelli é sobre os entregadores de aplicativo e a falta de direitos trabalhistas destes, ao mesmo tempo em que encontram em expressões culturais, como o funk, uma forma de alivio e protesto.

Ao vermos aquelas pessoas contando suas histórias para pouco tempo depois vermos eles dançando funk, é uma maneira de o público ver aquele trabalhador não como uma engrenagem, mas sim como uma pessoa, claro que isso é algo óbvio e que todos deveriam saber, porém, muito do que acontece hoje em dia é devido as pessoas não saberem coisas que para muitos são obvias.

Porque sim, na maioria das vezes, um filme tem esse objetivo, de gerar a empatia através do audiovisual, da história do outro, de ver o outro em tela. O cinema é o que é devido a ter essa capacidade imagética de alteridade e de conseguir gerar no outro essa mesma capacidade, usando suas ferramentas de linguagem e afins.

Logo, ao nos enxergarmos como fantasmas em nossa própria cidade ou como potenciais fantasmas, o curta de Martinelli consegue cumprir seu objetivo de conscientização e de trazer mais visão a luta por direitos dos entregadores de aplicativos.  

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