12.8.21

Festival de Locarno: Zeros and Ones

Zeros and Ones
Imagem: DIVULGAÇÃO

Poucos diretores falam sobre o desconhecido, o medo do desconhecido e a descoberta desse desconhecido, tão bem quanto Abel Ferrara. Toda a sua filmografia aborda isso de alguma forma, mesmo os filmes que não parecem levar esse assunto em consideração, como os documentários dele, ainda trazem algo sobre isso.

“Vamos ganhar essa guerra, para que os mortos não tenham sido em vão”. Essa frase poderia ser de Christopher Walken em “O rei de Nova Iorque”, quando ele decide ajudar a cidade através do dinheiro que ganhou na corrupção, poderia ser de Harvey Keitel em “Bad Lieutenant”, quando o policial olha para Jesus na Igreja e se arrepende de todos os seus pecados, poderia ser de Willem Dafoe em “New Rose Hotel”, quando ele está no quarto, sozinho, pensando que todo aquele golpe imaginado com Asia Argento foi a toa.

Mas, é de um dos personagens interpretados por Ethan Hawke em “Zeros and Ones”, no caso, o irmão do protagonista, Justin, um revolucionário de uma luta que começou há tempos. JJ, seu irmão, é um militar que está em uma Roma em cerco, enfrentando um inimigo que nenhum dos lados da guerra sabem quem é, o mundo está um caos e todos usam máscara devido a COVID-19. A missão pessoal de JJ é descobrir quem é o inimigo e onde seu irmão está.

O público se junta a JJ nessa busca e se identifica com ele. Os dias são sempre noites, não apenas de forma literal, mas também dentro do protagonista. JJ está em constante procura de algo que não sabe o que é, assim como os inocentes que ele encontra no meio de sua trajetória aparentemente infinita, a esposa do irmão, o morador de rua, as prostitutas e por aí vai.

Como ter fé em meio a esse caos? Vemos constantes explosões na cidade, enquanto pessoas ricas jantam e tomam vodca cara, enquanto outras pessoas se preocupam em colocar a máscara corretamente e lavar as mãos com frequência e não sabemos, assim como JJ, qual é a saída daquilo. O protagonista tenta acreditar que tudo aquilo vai passar, mesmo sem nem saber contra o que está lutando.

Esse ponto é importante e serve para os momentos cada vez mais atuais, independente do país. Vivemos em uma época de inconstância, onde nossa ansiedade está lá em cima devido a nossa necessidade de controle, mesmo que tenhamos consciência de que não é possível ter controle sobre algo incontrolável.

Tentamos nos distrair com músicas, filmes, realitys shows, literatura, fazemos terapia e infelizmente, não é possível se livrar do caos, seja porque o ser humano é uma junção de caos, ou porque o mundo está um caos. Para piorar, tudo é registrado e registrado por nós mesmos, de maneira consciente, através de nossos celulares, câmeras, internet e afins, em uma forma de termos controle sobre algo, mesmo que seja mínimo, ao mesmo tempo em que isso é contraditório, pois ao filmarmos e compartilharmos, damos o controle ao outro.

Por isso, creio eu, que todas as ações de JJ durante a obra são filmadas por ele mesmo ou por terceiros, em uma tentativa de controle sobre o desconhecido que está presente em todos os ambientes, tanto da obra, quanto da vida. Vemos a mesma imagem, a mesma cena, de maneiras diferentes, que JJ através de uma câmera, seja a câmera da roupa dele, seja a que ele carrega em um tripé, ou as câmeras das ruas de Roma, filma para seu público (nós) ou para ele mesmo.

Não é através delas que vemos uma mudança em JJ, porque não vemos, assim como não vemos a mudança em nós, a não ser quando esta já aconteceu e acontecem todos os dias. Tem dias que acordamos mais otimistas e dias que acordamos extremamente pessimistas com tudo, JJ é uma dessas pessoas e percebemos isso na atuação de Ethan Hawke.

Durante aquelas noites sem fim, tem momentos em que ele se encontra totalmente otimista em relação a descobrir qual é o inimigo desconhecido e a salvar o seu irmão (que ele, assim como nós, sabe que está preso.) Tem momentos que é justamente o oposto, que ele tem certeza de que nada vai dar certo, que o inimigo desconhecido nunca vai ser descoberto ou derrotado, que ele vai ter que usar uma máscara pelo resto da vida e que a noite será eterna e que nunca mais a luz do sol será vista, que o mais próximo da claridade será a luz de uma explosão.

Mas, sabemos que isso não é verdade e Ferrara também sabe. Se morrermos, iremos ir para o céu, como ele deixa claro na linda cena da igreja e em alguns dos diálogos com o morador de rua. Sempre teremos alguém com quem contar, assim como JJ tem o amigo que vemos apenas por videochamada, além, claro, da cunhada e da sobrinha, assim como a jovem russa (interpretada pela companheira de Ferrara) tem a amiga e assim por diante.

E os dias, sempre amanhecem. Independente dos zeros e uns que vemos consolidados na internet e nas câmeras, o sol sempre volta, o otimismo também e mesmo que ele passe, a sensação é a que fica, da mesma forma que o que fica sobre esse filme é que o desconhecido assusta a todos, mas, se conseguirmos lutar contra ele um passo de cada vez, teremos a mesma sensação de uma criança correndo no parque: a da liberdade, mesmo que seja passageira. 

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