30.9.21

Crítica - Nashville Film Festival: Chico Ventana que também queria ter um submarino

Chico Ventana
Imagem: DIVULGAÇÃO

Texto que faz parte da cobertura da edição 2021 do Festival de cinema de Nashville

This critic is part of Nashville Film Festival 2021 coverage

Um pensamento comum em uma sociedade é um no qual todo mundo acredita ou já acreditou: que estamos sozinhos. Seja devido a rotina ou por algum outro motivo, esse pensamento é mais comum do que nos damos conta.

Sem dúvida é essa ideia o principal motor do diretor Alex Piperno em "Chico Ventana, que também queria ter um submarino", levando em consideração que ele une pessoas de três lugares diferentes e igualmente sozinhas, através de um portal que liga as localidades, no caso um navio, um apartamento e uma aldeia indígena.

 
Essa solidão, sentida por todos nós, move esses personagens, de forma a entendermos o que eles passam por empatia e não apenas por termos sentido mesmo em algum momento. Logo, se vemos aquela mulher sozinha em seu apartamento, entendemos o motivo daquilo, se vemos aquele homem trabalhando no navio em meio aquelas pessoas ricas que ignoram sua existência, entendemos ao ver o outro, como o capitalismo afeta a vida das pessoas.

Claro, não só das pessoas presentes no filme - vale reparar o tanto que os comportamentos daqueles diferentes grupos sociais são parecidos devido ao capital - mas também afeta o nosso comportamento e a nossa vida, principalmente em relação a sonhos e expectativas.

Como é dito no próprio título do filme, que representa um sonho e claro, um sonho impossível para pessoas comuns. Nunca nenhum daqueles personagens vai conseguir realizar os sonhos que porventura tiveram, a mulher do apartamento vai continuar sozinha, o homem do navio vai continuar de um emprego ruim (mas honesto) para outro e a aldeia indígena vai continuar esquecida pela sociedade, mesmo que eles sejam aqueles que a construíram.

Tudo é descartável, inclusive nós mesmos, somos descartáveis uns para os outros mesmo que não saibamos isso. Com certeza aqueles personagens foram jogados fora de alguma forma, o que os levou a realizar escolhas que os fizeram chegar até aquele ponto de união, onde se conheceram e escolheram interagir um com o outro de alguma maneira.

Ou seja, basicamente, um resumo das interações humanas reais, escolhemos com quem interagir por uma série de motivos, nos livrar momentaneamente da solidão, querer um amigo, necessidade de trabalho, necessidade de inclusão momentânea em algum meio, amor ou várias outras coisas.

A mulher no filme, escolhe interagir com o homem do navio, mesmo com a maneira com a qual acabaram se conhecendo. Eles, mutuamente, escolheram ignorar aquele portal que os levou até ali e escolheram não saber a origem daquele portal, para, pura e simplesmente, serem amigos. Nada mais humano do que isso e possivelmente, poucas coisas são mais bonitas do que isso.

Talvez, "Chico Ventana que também queria ter um submarino", se beneficiasse de mais aprofundamento na história dos indígenas, levando em consideração que eles pouco exploram aquele portal e assim, pouco conhecem aquelas pessoas. Mas, isso pode ter sido proposital, porque desde sempre, quando indígenas tentaram conviver em paz com o homem branco, este o explorou de todas as formas possíveis em prol do lucro, então, é perfeitamente possível entender o afastamento, cautela é sobrevivência.

Assim, Alex Piperno constrói um bonito retrato da solidão e da vontade ou não de se aproximar do outro. "Chico Ventana" é um filme sobre sonhos dentro da solidão e apenas a ideia disso por si só é algo bem bonito.

Texto que faz parte da cobertura da edição 2021 do Festival de cinema de Nashville

This critic is part of Nashville Film Festival 2021 coverage

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