15.10.21

Crítica: Duna (2021)

Duna
Imagem: DIVULGAÇÃO


 No primeiro momento de “Duna”, confesso ter ficado assustado, pois lembrei da adaptação de David Lynch, sabotada pelo estúdio e por isso um fracasso. Isso porque os inícios de ambos os trabalhos são bem similares: narrações em off inúteis, de uma personagem relevante mas não aparente naquele momento e a narração desaparece da obra, o que a torna completamente irrelevante.

Porém, se no filme de Lynch, o estúdio prejudicou ao não deixar o diretor ter o corte final, na adaptação de Villeneuve, isso não ocorreu e foi apenas uma escolha ruim, corrigida em seguida no decorrer da jornada de Paul Atreides (Timothee Chalamet), um jovem inteligente e adequado a uma profecia messiânica quando vai junto com seus pais Duque Leto (Oscar Isaac) e Lady Jessica (Rebecca Ferguson) para Arrakis, popularmente conhecido como Duna, um planeta desértico que abriga a Especiaria, substância mais valiosa do universo. Isso gera uma guerra entre os Atreides e os Harkonnen, antigos “donos” do planeta.

Villeneuve organiza a sua adaptação (Duna é um livro escrito por Frank Herbert) de maneira interessante, tanto para quem leu o livro – como eu – quanto para o público que não leu. As informações de uma obra complexa e com termos criados pelo próprio Herbert são importantes para o filme, pois a jornada messiânica de Paul depende disso.

Se por um lado, Villeneuve “erra” na disposição de algumas dessas informações no filme, principalmente na primeira hora, na segunda hora, o filme recupera o folego, ganha ritmo com os acontecimentos e se beneficia da organização anterior. A primeira hora mantem a projeção viva devido as atuações de um elenco estrelado, mesmo que essa hora provavelmente agrade ao espectador por outros motivos.

Pois, se no livro tudo é filosófico, no filme, obviamente, tudo é visual. Vemos o medo de Lady Jessica no rosto de Rebecca Ferguson, em uma atuação que se aproveita ao máximo da melhor personagem da história. Extremamente inteligente e capacitada, Jessica passa as dúvidas em relação ao futuro de Paul, o medo em relação a jornada e das visões que ele tem de maneira efetiva para o espectador.

Sim, Paul é um jovem inteligente e com dotes de presciência. As visões dele dão vazão as ideias de Villeneuve, mostram a importância daquela guerra e o que ela representa politicamente, ao vermos o que Paul vê entendemos que ter aquelas capacidades não é o suficiente se dentro dele há toda a confusão característica do crescimento.

Nessa confusão reside os melhores momentos do filme e as construções do drama de Villeneuve. As dúvidas do protagonista se tornam nossas dúvidas, da mesma maneira que o medo sentido por Jessica se torna nosso medo. Na obra de Herbert lemos tudo isso e novamente, no cinema temos que ver isso, dentro do possível Villeneuve foi capaz de transmitir essa sensação para o espectador.

Por que na segunda hora o filme cresce? Porque Villeneuve deixa de se preocupar com as explicações de termos e tramas que envolvem aqueles personagens e passa a focar na jornada de Paul para se tornar o messias. O foco em um ponto fez bem ao filme, o ritmo acelera com a ação das lutas, com a confusão do personagem e com o entendimento do espectador que o que estamos assistindo não acaba ali.

Sendo que essa confusão e a compreensão de que aquele não é o fim, foi criada em nós na medida que vemos as visões de Paul. O protagonista vê coisas que sabemos que não vão acontecer imediatamente e vê personagens que sabemos que não terão papel relevante agora, mas sim, no futuro. Essa construção de curiosidade dentro de nós faz com que a adaptação de Villeneuve e a ideia que ele tem dos livros (que claramente leu) seja atrativa.

Essa construção passa pelo som, o filme usa e abusa do som alto para transmitir várias coisas, mas, principalmente para transmitir a Voz – certas pessoas que podem comandar as ações dos outros apenas usando a sua voz – o som aumenta quando a Voz é usada e ao unir isso com a luz (monocromática mas bonita) onde vemos a areia se misturar com a Especiaria, nosso envolvimento com aquela história cresce de forma considerável.

Por mais que nem tudo seja perfeito, “Duna” é um filme interessante e que tem a capacidade de manter o público curioso e preso na fascinante história criada por Herbert. No livro há vários desdobramentos políticos e filosóficos apaixonantes e eu espero que caso exista uma sequência desse filme aqui, que a visão de Villeneuve do livro se mantenha na mesma toada, pois esse novo trabalho do diretor canadense é no mínimo interessante. 

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