15.10.21

Chicago Film Festival: Bergman Island + Cow

 

Bergman Island
Imagem: DIVULGAÇÃO

Texto que faz parte da cobertura da edição 2021 do Festival de cinema de Chicago

This critic is part of Chicago Film Festival 2021 coverage

Imagino que Ingmar Bergman tenha tido um papel considerável na cinefilia e posteriormente na direção de Mia Hansen-Love, pois “Bergman Island” é de certa maneira uma homenagem da realizadora a carreira do diretor sueco, não apenas pelo motivo óbvio da história desse filme se passar na ilha onde Bergman morou, mas por demonstrar certo carinho com as histórias, carinho que com certeza não é recente.

Pois tanto Cris (Vicky Krieps), quanto Tony (Tim Roth), são realizadores que tem um carinho grande pelo cinema e pelo cinema de Bergman. Acompanhar o casal por Farö e ver os dois conhecendo a ilha, já tendo domínio pela obra do diretor, é de certa maneira reconfortante, porque vemos a realizadora passando seu amor para frente e tornando-o público através de seus personagens.

O encanto do casal com a ilha é o nosso encanto e o encanto da diretora. Para aqueles que gostam de Bergman (meu caso), o filme ganha um contorno a mais, levando em consideração que provavelmente eu nunca terei a oportunidade de fazer o que o casal protagonista fez, conhecer aquele local e ficar muito próximo de algo importante para a minha trajetória (breve e não relevante) no cinema.

“Bergman Island” tem sua força no ato de contar histórias e principalmente no ato de se envolver com a história que você está contando e não apenas ser um interlocutor distante e imparcial. A imparcialidade, a frieza, não é bem-vista na arte, porque ela é impossível. Boas histórias têm algo das pessoas que a estão contando, o autor de qualquer coisa (livro, texto, filme, pintura) precisa deixar algo seu na história, pois é esse algo que causa empatia no espectador.

Por isso, acredito que quando Cris conta seu roteiro para o companheiro, é algo forte porque representa tanto a personagem, quanto a própria Mia Hansen-Love, se abrindo para o público e escolhendo ser vulnerável, expondo suas fraquezas para o público e compartilhando-as em uma espécie de desabafo.

Talvez por isso a história de Cris fosse tão... concreta, porque para ela, a história contada não é algo distante de si, mas que faz parte de si, como se Amy (Mia Wasikowska), personagem principal do roteiro da personagem de Vicky Krieps, fizesse (ou ao menos tivesse feito parte) da personalidade de Cris e assumir isso publicamente é assumir vulnerabilidade e isso é força.

Se Amy é Cris se expondo para o mundo, Cris é Mia Hansen-Love se expondo para o mundo ou no mínimo para nós espectadores. É como se a diretora contasse a própria história de como é o processo criativo dela em relação a seus filmes e em relação a seu carinho por Bergman. As dúvidas de Cris – compartilhadas com Tony em certa cena – com certeza foram as mesmas que a diretora teve em algum momento do processo de criação de todos os seus trabalhos.

Porque a dúvida é algo natural do ser humano e ser humano é ser vulnerável, ser forte é assumir a própria fraqueza e ser mais forte ainda é escolher compartilhar essa fraqueza com o outro e permitir julgamentos. Contraditório pensar que esse compartilhamento de dúvidas e medos é algo demonstrativo de nossa força e pensar que a diretora desse filme escolheu, de livre e espontânea vontade, fazer isso através de sua protagonista é algo bem bonito de se pensar. Cinema é risco, assim como toda a arte.

Cow
Imagem: DIVULGAÇÃO

Cow

Não sei até que ponto o novo filme de Andrea Arnold, “Cow”, é um filme que vai atrair o público, seja pela sua proposta ou pela execução desta, a obra não parece buscar a comunicação com o espectador, a conversa com esse, até porque, nem todos vão achar interessante acompanhar a rotina de vacas em uma fazenda por uma hora e quarenta.

Porém, levando em consideração filmes recentes como “Gunda”, “Cow” funciona da mesma maneira, levando o público a entender que os animais fazem parte da nossa rotina e são seres vivos assim como nós. Talvez por isso a câmera quase subjetiva de Arnold – só lembramos que ela de fato não colocou a câmera em uma vaca quando algumas delas batem na lente em alguns momentos – seja funcional, pois nos causa essa sensação de aproximação.

Essa aproximação das pessoas com os animais deveria ser mais natural e “Cow” mostra que isso é possível.

Texto que faz parte da cobertura da edição 2021 do Festival de cinema de Chicago

This critic is part of Chicago Film Festival 2021 coverage

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