6.10.21

Crítica - Nashville Film Festival 2021: Petite Maman

Petite Maman
Imagem: DIVULGAÇÃO

Texto que faz parte da cobertura da edição 2021 do Festival de cinema de Nashville

This critic is part of Nashville Film Festival 2021 coverage

“É sempre um momento duro quando um menino descobre que seus pais são apenas pessoas” – Frank Herbert, Duna

Em uma das várias entrevistas dadas pela diretora e roteirista Celine Sciamma sobre “Retrato de uma jovem em Chamas”, ela disse que um dos principais pontos da relação entre Noemie Merlant e Adele Haenel é a ideia da criação de uma linguagem própria, que apenas o casal envolvido naquela relação amorosa entende de fato e quando essa relação acaba, essa linguagem também acaba.

As vezes, o que a pessoa pensava ser um fim, não era nada mais, nada menos, do que uma nova descoberta e essa descoberta pode ser justamente no momento em que você percebe que as pessoas, mesmo aquelas que lhe são muito próximas desde sempre, são apenas pessoas, com erros e acertos justamente iguais a você, por isso é um momento difícil quando nós nos apercebermos disso.

“Petite Maman” é sobre esse momento na vida de uma criança. Após perder a avó, Nelly vai junto com sua mãe a casa desta, para tirarem o que ficou de lá, levando em consideração que ninguém mais vai viver ali. Durante um desses dias, a mãe da jovem vai embora e Nelly, brincando no bosque em frente a casa, faz uma amiga e o filme passa a acompanhar essa amizade.

Amizade que para sorte de Nelly serviu como uma segunda chance para corrigir erros que a menina, mesmo muito jovem, acreditava ter cometido com a certeza de um adulto. Essa segunda chance vem aliada a criação dessa linguagem própria com a sua nova amizade, que ambas têm certeza de ser apenas temporária, por mais que tenham motivos para acreditar no retorno dessa relação no futuro.

Futuro incerto como todos são e isso serve para todas as gerações, principalmente no que diz respeito a relação intergeracional experimentada pela menina. Se no início do filme vemos ela em um asilo, se despedindo das mulheres dali, durante o restante da obra, vemos como a relação dela com os pais, com a amiga e a mãe desta, é algo que a influenciará por toda a sua vida.

Descobrir que os adultos são apenas pessoas e saber disso como Nelly soube é no mínimo uma experiência singular que pode ser tanto de aproximação quanto de afastamento. Se fosse um adulto no lugar da menina, muito provavelmente seria de afastamento, pois um adulto é levado de maneira quase natural pela vida a ser cauteloso a ponto de preferir não viver do que tentar algo novo, pura e simplesmente por pensar numa possível experiência ruim, principalmente se levarmos em consideração o tanto que o adulto já viveu até chegar nesse ponto de cautela.

Em compensação, para uma criança tudo é novo, basicamente todos os momentos da infância são momentos de descoberta e em cada criança há vontade de saber o que o mundo é e isso é algo natural. Logo, não é surpreendente Nelly agir até com certa frieza na ocasião inicial de descoberta no filme, para ela, aquilo não é uma situação para ter medo, é uma situação de pura e simples exploração do mundo.

O fato dela, de certa forma, cuidar da mãe e do pai durante a obra – cena inicial onde ela dá salgadinhos para a mãe enquanto ela dirige e cena mais próxima da metade onde ela fala para o pai que fumar faz mal para ele – leva Nelly a não ter medo da situação apresentada a ela devido a amizade que fez, pois, de certa maneira, aquela menina que ela conheceu fez o mesmo e ambos fatos levam não a um conflito geracional, mas sim a uma comunhão geracional, onde todos ali aprendem uns com os outros coisas que levarão dentro de si para sempre.

Não sei até que ponto eu como adulto, perdi esse sentimento da vontade da descoberta do novo, mas, acredito que eu não seja o único que tenha perdido isso. Talvez, “Petite Maman” sirva como um ponto de virada na vida de muitos, talvez, ao ver esse filme, percebamos que somos apenas pessoas, não deuses ou robôs, que não devemos ser automatizados e que a comunhão ocorrida no filme, pode ocorrer em nós como sociedade.

Apenas o poder da imagem tem a capacidade de passar uma mensagem tão forte quanto essa e acho que poucos detém a capacidade de manipular esse poder de transmissão como Celine Sciamma. As vezes, tudo o que é precisamos é de 1h12 de um filme assim. 

Texto que faz parte da cobertura da edição 2021 do Festival de cinema de Nashville

This critic is part of Nashville Film Festival 2021 coverage

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