13.10.21

Chicago Film Festival: The Night

The Night
Imagem: DIVULGAÇÃO


Texto que faz parte da cobertura da edição 2021 do Festival de cinema de Chicago

This critic is part of Chicago Film Festival 2021 coverage

O cinema do diretor Tsai Ming-Liang trata várias coisas comuns como elas de fato são, comuns. Mesmo que essas coisas sejam extremamente estranhas (caso de O Rio e The Wayward Cloud), o taiwanês não as esconde, ele as trabalha, ele as mostra e deixa o público decidir se é normal, estranho, comum ou apenas algo a se ignorar, nós, espectadores, temos a escolha, se a fazemos ou não, é problema nosso.

Há uma série de curtas do Tsai (que dirigiu mais curtas do que longas), que assim como seus longas trabalha o silêncio e a meditação. Seu mais novo trabalho, “The Night”, não faz parte dessa série, mas trata o silêncio como algo comum e deixa o público decidir se quer ou não permanecer em silêncio, trata isso como uma escolha e não como uma obrigação.

O filme consiste em planos fixos da cidade de Hong Kong durante a noite, feitos pelo próprio diretor. Neles vemos a rotina do local e como essa se torna vazia, devagar, até mesmo tediosa, durante a madrugada na grande cidade. Quase tudo para, os espaços ocupados pelas pessoas ficam vazios e a sociedade se recolhe para recomeçar no dia seguinte.

Isso é gentil, relaxante. Alivia encarar o silêncio desses planos, entender como esse silêncio faz parte de nós e mais do que isso, ele é um desafio, pois faz com que encaremos a nós mesmos. A incomunicabilidade da cidade vazia é apenas a cidade grande sendo igual ao nosso interior, incomunicável para muitos, inclusive para nós.

É estranho dizer tudo isso, principalmente devido ao filme se tratar apenas de planos da cidade organizados de corte seco em corte seco, ou seja, tedioso para muitos. Mas, como dito, Tsai permite que o público escolha com base em um assunto comum e não encarado por nós como sociedade.

Novamente, como já dito, o silêncio é esse assunto aqui, porém, diferente de outros diretores, como Bresson e Ferrara, Tsai consegue fazer com que o público relaxe. Talvez esse curta funcione melhor com moradores de cidade grande, como eu, que sempre viveu em São Paulo e como qualquer outra metrópole, inclusive Hong Kong, esta é uma cidade que não para.

Então acho que o estranho não é eu dizer tudo isso, mas sim é eu ver toda uma cidade grande no mais total e absoluto silêncio. É assustador pensar que esse silêncio é possível, ao mesmo tempo que é relaxante experimentá-lo. Recentemente, fiz o caminho mais longo até a estação de metrô e foi interessante, por mais que estivesse acompanhado de um amigo, ouvir o silêncio da cidade enquanto caminhava.

“The Night” me lembrou dessa sensação e evocou em mim o relaxamento sentido na situação descrita. Claro, eu posso estar exagerando em relação a tudo isso devido a estarmos em um momento de pandemia, onde as nossas saídas foram reduzidas de maneira brusca, porém, o importante foi que eu tive a escolha de encarar o silêncio dessa forma e Tsai me fez lembrar dessa escolha e isso, por si só, é algo bonito e relaxante.

Texto que faz parte da cobertura da edição 2021 do Festival de cinema de Chicago

This critic is part of Chicago Film Festival 2021 coverage

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