30.1.22

IFFR 2022: France

France
Imagem: DIVULGAÇÃO

Texto que faz parte da cobertura da edição 2022 do Festival de cinema de Rotterdam

This critic is part of IFFR 2022 coverage

Em vários momentos de “France” pensei em como os locais onde o filme se passa parecem ridículos. Não porque de fato sejam, mas sim porque tudo é ridículo, irreal, bobo, quando se está triste. A maneira que olhamos para o mundo, quando temos a tristeza em nós, faz com que o nosso redor soe como algo trivial.

Assim como a personagem título, interpretada por Lea Seydoux, quando isso acontece, o primeiro passo a se tomar é aprender a disfarçar sua tristeza, para não preocupar os outros, principalmente quem amamos. Você se priva muitas vezes dentro dessa ideia de disfarce e aprende a esquecer constantemente de como o mundo se tornou ridículo.

Bruno Dumont, diretor e roteirista desse filme, trata esses momentos da forma adequada para pessoas não tristes entenderem a protagonista. A cidade super colorida, as roupas da personagem, toda aquela brincadeira frequente entre ela e sua assessora, essas pequenas coisas, microcenários de alegria falsa, são bem trabalhados pela obra.

Ninguém entende esse sentimento a não ser pessoas que também o sentem. Não a toa, a casa onde France, seu marido e filho vivem, é enquadrada daquela maneira a fazer parecer que o local é pequeno. Não é a casa que é pequena, mas France que se sente pequena ali, ignorada, presa, tanto por um marido frio e um filho distante, quanto pela fama através de seu trabalho como jornalista, que foi o que a levou a ter aquela casa.

A fama foi o gatilho para a personagem assumir sua personalidade triste. O estúdio, onde ela deveria se sentir bem, se torna apenas um local qualquer a partir do momento em que ela entende que precisa lidar com a sua tristeza e disfarçá-la para não machucar ninguém. Muitas vezes, ela até parece esquecer como ela é boa em sua profissão, uma das várias fases que a tristeza faz a pessoa passar.

O esquecimento a leva até a esquecer como ela dirige suas matérias de forma tão natural que nem parece que ela estudou para aquilo. Mas, ela não estudou para dirigir sua própria vida e seus sentimentos, claro, ninguém estudou. Talvez por isso somos enganados o tempo inteiro por nós mesmos e pelos outros. Por isso, imagino, há cenas no filme que levariam ao riso em outra ocasião (como a cena em que a senhora fala para ela que viu a chanceler alemã), mas dentro da história, elas são sérias e levam o público a pensar “meu deus, pare de falar”.

Porque tudo o que France deseja, assim como pessoas que lidam com o sentimento ali apresentado, é silêncio, o anonimato. O barulho da cidade grande é irritante, os constantes pedidos de foto para France incomodam tanto o espectador quanto a protagonista e o silêncio da cena do retiro e de uma cena especifica no estúdio, trazem paz, mesmo que elas não tenham exatamente esse objetivo.

Os pequenos momentos de paz são frequentes e rápidos, a perspectiva desse silêncio pacificador, a expectativa que criamos para tê-lo causa ansiedade antes de o atingirmos e alívio no momento em que ele chega. “Tudo passa em 24 horas” diz a assessora de France em certa cena. Ela está errada e a olhada de France é a resposta perfeita, nem tudo passa em 24 horas, a tristeza mesmo, fica.

Texto que faz parte da cobertura da edição 2022 do Festival de cinema de Rotterdam

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