5.2.22

IFFR 2022: Drifting Petals

Drifting Petals
Imagem: DIVULGAÇÃO

Texto que faz parte da cobertura da edição 2022 do Festival de cinema de Rotterdam

This critic is part of IFFR 2022 coverage

As ruas vazias de Macau e de Hong Kong passam calma. Vemos uma noite de céu limpo, estradas sem carros, prédios com as luzes ligadas mas sem ninguém e o nosso protagonista, um estudante de piano, andando pela cidade, procurando algo que nem ele sabe o que é, mas com a certeza de que vai encontrar.

Escutamos a voz da diretora e roteirista de “Drifting Petals”, Clara Law, ao fundo, enquanto a câmera acompanha Jeff, o estudante citado. Ela também está a procura de alguém, não sabemos quem e talvez nem ela saiba, mas após conhecer Jeff na Austrália, eles passam a buscar juntos esse desconhecido.

Da mesma forma que pétalas vagam quando caem das arvores no outono, os dois vagam pela cidade, falando com pessoas, discutindo sobre política e claro, falando sobre um futuro que eles podem nem ver, mas querem, de alguma forma, fazer parte. O sentimento preenche a busca constante dos dois.

Todos nós estamos buscando algo que não sabemos o que é, tentando constantemente, vagando pela cidade grande e encontrando outras pessoas que também tentam e dessa forma, nos ligando uns aos outros. Essas constantes tentativas e erros levam, ao menos em teoria, a união das pessoas que tem algo em comum.

Clara Law usa a história de Jeff e a história do casal de namorados, de maneira que remonta o filme “Tempting Heart”, dirigido por Sylvia Chang, onde a diretora conta a história ao mesmo tempo em que a filma, um filme metalinguístico. Aqui, Law faz algo similar, porque a linha entre a história do filme dela e a história que ela está trabalhando nesse filme (a da busca) é extremamente tênue.

Isso não é, de forma alguma, ruim, pois torna o filme algo próximo de nossas vidas. Não sabemos qual é a nossa história, até que a vivemos, da mesma forma que não sabemos qual é a história que estamos buscando contar, até que a contamos. Estamos apenas vagando por aí, cada um em sua cidade e se dermos sorte, encontramos alguém para nos acompanhar nessa busca.

“Drifting Petals” é um filme que aproxima o público do cinema ao mesmo tempo em que o afasta. Se aproxima porque vemos as nossas constantes tentativas (ou não tentativas) de viver em tela, afasta pelo mesmo motivo. Se ver em tela, principalmente num ponto de vista filosófico, pode ser bem cruel e nos levar a reflexões para as quais não estamos preparados, da mesma forma que nos mostrar que sim, estamos preparados, mas não pensávamos isso até então e isso pode valer até para pessoas que trabalham com arte e não voltam a seus próprios trabalhos de tempos em tempos, até porque, encarar o que você fez também é um passo na sua busca pelo desconhecido.

Poucos realizadores têm a mão sensível para ilustrar essa busca e esse silêncio como Clara Law, que deveria ser mais discutida quando falamos de cinema. 

Texto que faz parte da cobertura da edição 2022 do Festival de cinema de Rotterdam

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