4.2.22

IFFR 2022: Hold me tight

Hold me tight
Imagem: DIVULGAÇÃO

Texto que faz parte da cobertura da edição 2022 do Festival de cinema de Rotterdam

This critic is part of IFFR 2022 coverage

Todo relacionamento é fadado ao fim, seja devido a vida ou pelo fim dela, todo relacionamento acaba, amizades, amores, tudo, absolutamente tudo, acaba. O jeito é aproveitar enquanto você ainda o tem, ciente de que um dia isso terminará e não será fácil esquecer e seguir em frente.

Clarisse (Vicky Krieps) pega suas coisas, entra no seu carro e vai embora. Mathieu Amalric, diretor de “Hold me Tight”, usa a viagem dela para nos inserir dentro de sua vida familiar, ela abandona seu marido, dois filhos e parte em uma busca pelo desconhecido, lutando contra a saudade que sente das crianças.

Amalric usa o tempo e a dúvida, tanto de Clarisse, quanto do espectador, para brincar e enganar seu público. Dentro do contexto de saudade, tudo é relativo e existe uma confusão entre o que é verdade e o que a nossa mente idealizou como sendo uma lembrança. A nossa saudade nos engana até mesmo em relação ao que de fato aconteceu, apenas para se retroalimentar e manter o ciclo de nostalgia vivo.

Logo, temos a base da lembrança e a dúvida de como aquilo aconteceu. Amalric usa essa dúvida no espectador, para fazê-lo se questionar o tempo todo do que está acontecendo ali, Clarisse abandonou a família? Ela conheceu o marido daquele jeito mesmo? A filha dela de fato queria ser pianista ou isso era um sonho fracassado da própria mãe?

Ao fazer nós pensarmos nisso e usar o tempo como ferramenta estrutural para aumentar a dúvida, o diretor gera no público lembranças de sua própria vida. É inevitável que a gente não se lembre de alguma situação, mesmo que não seja igual àquelas vistas em tela, simplesmente pelo sentimento de saudade gerado pelo filme.

Essas coisas não seriam possíveis sem a atuação de Vicky Krieps, que serve o tempo todo como motor do filme e gerador da saudade e da dúvida. Mesmo que não saibamos o motivo pelo qual ela foi embora, não é possível questionar suas atitudes, porque não é possível questionar a saudade e nem o amor que ela sente por sua família.

Porque tem certas coisas que não se questionam. Quando alguém fala ou demonstra que está com saudade e isso é claramente verdadeiro da parte da pessoa, a única coisa que o ouvinte pode fazer é ficar em silêncio. Nunca entenderemos a saudade do outro ou o amor do outro, mesmo que esses sentimentos sejam por nossa causa, é impossível saber o que isso significa para a pessoa.

O tempo fica confuso, as lembranças vêm e vão, uns dias são mais fáceis do que outros e todos os dias são difíceis, mas, mais cedo ou mais tarde, todo mundo aprende a lidar com a saudade e com a confusão gerada pela lembrança. Continua confuso? Sim, mas fica mais simples lidar com isso dentro de si.

“Hold me tight” é um manifesto sobre saudade e principalmente, um manifesto sobre finais e continuidade, sobre não ter opção e seguir em frente sem esquecer de tudo o que passou, 1h40 que te deixam com mais saudade ainda. 

Texto que faz parte da cobertura da edição 2022 do Festival de cinema de Rotterdam

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