2.2.22

IFFR 2022: Please, baby, please + Give me Pity

Please, baby, please
Imagem: DIVULGAÇÃO

Texto que faz parte da cobertura da edição 2022 do Festival de cinema de Rotterdam

This critic is part of IFFR 2022 coverage

O conceito de masculinidade é algo, ao menos para mim, ininteligível. Porque ser homem é ser algo pré-concebido para ser agressivo ou violento com outros ao seu redor, em sua maioria mulheres? É surreal que isso tenha sido aceito por muito tempo, principalmente nos anos 50.

“Masculinidade é comparação que os homens fazem uns com os outros”, diz, em certo momento Arthur (Harry Melling, conhecido por interpretar o primo malvado do Harry Potter) em “Please, baby, please”, dirigido por Amanda Kramer. O filme conta a história desse homem e de sua esposa, Suzie (Andrea Riseborough), recém casados, eles se transformam na obsessão de uma gangue cujo líder, Teddy (Karl Glusman) se apaixona por Arthur e tem seu amor correspondido.

Obsessão é algo que nos anos 50, época na qual o filme se passa, era comum em relação ao que é ser homem e o que é ser mulher. Tanto Arthur, quanto Suzie e Teddy, enfrentam essas dúvidas e demonstram ser pessoas cansadas de aparentarem ser aquilo que não são. Eles buscam o tempo inteiro a quebra do estereotipo que lhes foi imposto, por mais que vivam dentro desse paradigma.

Arthur é o ponto de ruptura desse modelo para os dois personagens. Um homem que não sabe bem o que quer passar fisicamente (principalmente em suas escolhas de roupa, roupas ditas masculinas, mas sem um estilo característico do personagem), ele é quem apresenta as vulnerabilidades necessárias para o questionamento pessoal de Suzie e Teddy, levando em consideração que Teddy é um “clássico” homem dos anos 50, vestido sempre de jaqueta de couro, camiseta branca, calça jeans e Suzie sempre de vestido e com o rosto maquiado.

Todos esses personagens pedem “por favor” uns para os outros (não a toa o título “por favor, querido, por favor” em tradução livre), para serem quem eles são, mas na verdade, eles não precisam pedir isso para os outros, eles precisam pedir isso para si mesmos. As cenas musicais do filme servem de ferramenta para esse manifesto ser exposto por eles, da mesma forma que o surrealismo da obra e as citações a “Um bonde chamado desejo”, peça de Tennessee Williams adaptada por Elia Kazan para os cinemas.

Os diálogos entre o casal protagonista e seus amigos, também mostram como é possível ser o que se é, mesmo que isso dê trabalho. Arthur quer provar que é possível ser homem e ser vulnerável, seu amigo poeta faz isso, pois qualquer forma de arte exige vulnerabilidade para que possa ser feita, Suzie quer ser uma mulher livre, empoderada em todos os sentidos e tem uma amiga que é justamente isso, ao mesmo tempo em que mostra como o casamento não é necessário para a conquista da liberdade.

Mas era comum pensar no casamento como ferramenta, pois as pessoas nos anos 50 eram incentivadas pela mídia e pela sua família, a se casarem muito cedo, tal qual fez Blanche na peça de Williams e no filme de Kazan, logo, não é crime, errado ou surreal, que o casal protagonista se renda a vida que eles têm, o surreal seria se eles não tentassem sair daquilo de alguma maneira e Kramer usa justamente o surrealismo característico de seu estilo, para libertar seus personagens.

“Please, baby, please” é a favor da vulnerabilidade e das exposições que todos nós estamos sujeitos todos os dias. Não precisamos ser quem a sociedade quer que sejamos, precisamos ser o que somos, mesmo que seja cada mais difícil, nos anos 50 ou em 2022, persistir nisso. A força vem de onde se menos espera.  

Give me pity
Imagem: DIVULGAÇÃO

Sempre imaginei como seria um programa triste de “Saturday Night Live”, onde os números não teriam o objetivo de fazer rir, mas sim, de fazer o público refletir sobre algo. Dirigido por Amanda Kramer, “Give me Pity” é exatamente isso, uma experiência próxima do colapso, de uma atriz que quer a todo custo ser famosa.

Estruturado de maneira a ser um programa de esquetes onde Sissy St.Claire (Sophie von Haselberg) apresenta e performa em todos os números, o filme debate sobre originalidade e sobre o preço a se pagar para atingi-la, assim como o custo da fama e principalmente da tentativa de ser famosa. Através de seu estilo ousado e surreal, a diretora Amanda Kramer constrói isso muito bem e a imagem granulada como se fosse um VHS faz com que o público, principalmente quem pegou a fase do home vídeo, sinta uma certa nostalgia e uma tristeza ao mesmo tempo.

Até porque, sejamos honestos, nostalgia, tristeza e originalidade estão de certa forma ligados e Give me Pity é exatamente isso, original e triste, como um filme de Amanda Kramer costuma ser.

Texto que faz parte da cobertura da edição 2022 do Festival de cinema de Rotterdam

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